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terça-feira, 20 de março de 2012

Tenente Columbo

Tenente Columbo


Estive de férias e estou retornando. Espero que tenham passado um ótimo Natal, e tenham entrado 2012 com o pé direito. No final de janeiro entramos no ano do dragão, e espero que para todos nós seja um dragão que não exale muito ácido sulfuroso pelas ventas!
Peças fragilizadas, a  nova aventura do detetive Alyrio Cobra, foi publicada e está disponível como e-book em todas as livrarias virtuais. Este livro entrou no mercado com o pé direito! Na primeira semana já está na lista dos e-books mais vendidos da Livraria Cultura! Maravilha! E semana que vem já estará lá como POD também!

Minha última crônica antes das férias foi sobre o detetive Alyrio Cobra. Se quiserem conhecê-lo melhor, leiam aqui no Blog da KBR: Alyrio Cobra, o detetive paulistano. Durante as férias, estive com meus netinhos que vivem na Itália. Como eles são pequenos, tem três e quatro anos, não tive muito tempo para leituras, mas assisti muita TV. Lá exibem seriados antigos e aproveitei para revê-los, entre eles, várias vezes por semana, o “Tenente Columbo”. Fora o fato de que lá ele fala italiano, deliciei-me com suas aventuras. Incrível como eu me lembrava do tempo que o assistia aqui no Brasil, falando português.
Hoje assistimos “CSI”, “Lost”, “Law and Order”, “Criminal Intent”, “House” e tantos outros seriados cheios de suspense e tecnologia. No entanto, nos anos 1970 o tenente Columbo (seu primeiro nome jamais foi revelado) da polícia de Los Angeles era fantástico, um roteiro superinovador.
Aqui no Brasil já revi alguns dos episódios , mas revendo-os lá na Itália pude perceber que o ápice da arte de escrever para televisão foi atingido em Columbo. O seriado nasceu de uma peça de teatro escrita pela dupla Richard Levinson e William Link, na qual um psiquiatra cria um plot perfeito para matar a esposa rica… ou um plot que parece perfeito, até que Columbo entra em cena. A peça fez sucesso e foi filmada, já com Peter Falk no papel, anos antes de o detetive ganhar seu seriado. O primeiro episódio da série foi dirigido por um jovem de 25 anos: Steven Spielberg.
Columbo foi um seriado policial inovador na medida em que adotava não o formato “whodunnit” (quem cometeu o crime), mas sim “howdhecatchem” (sabendo quem é o culpado, como o pegaram?).
Um episódio padrão do tenente Columbo tinha o seguinte formato: no primeiro bloco, o telespectador assistia o crime muito bem engendrado sendo cometido: via o motivo, a arma, a oportunidade, as providências do criminoso para esconder seu feito, em geral, um álibi perfeito. Nos blocos seguintes — e era aí que a história ficava de um jeito que ninguém conseguia sair da cadeira — assistia-se o tenente Columbo descobrir, um a um, todos os erros cometidos pelo assassino. De uma forma bastante desajeitada, sem nenhuma tecnologia com as que conhecemos nos dias de hoje, lançava mão de uma série de armadilhas psicológicas que acabavam levando o assassino a confessar, ou a produzir a evidência necessária para condená-lo. Como já disse, era o ápice da arte de escrever para a TV, o suspense atingindo pontos altíssimos, o telespectador não conseguindo sair da frente da telinha por nada deste mundo!
Houve críticos que o condenaram: afirmavam que Columbo era um torturador, pior que os assassinos que prendia — já que a técnica psicológica do personagem de induzir o culpado a confessar muitas vezes envolvia boas doses de crueldade mental. Columbo ou dava a entender ao culpado, por meio de elipses e circunlóquios, que sabia quem ele era e o que tinha feito, causando não pouca angústia, ou se fazia de tolo, gerando um falso senso de segurança que precedia a queda. Esse era o método de Columbo.
Na época, se o compararmos à tecnologia de CSI e todo o aparato moderno das polícias americanas, Columbo só dispunha da própria inteligência e das técnicas psicológicas “torturantes”. Diga-se de passagem, ele sequer usava arma.
O seriado foi primeiro escrito, para depois virar imagem. E as contribuições de Peter Falk à construção do personagem são famosas: o ator, que tinha um olho de vidro, usava o olho ligeiramente fora de centro para fazer o personagem, dando ao detetive um ar apalermado (a estratégia básica de Columbo era fazer-se subestimar pelos suspeitos); além disso, o sobretudo amarrotado e desabotoado, marca registrada de Columbo, foi outra ideia do ator. Na Califórnia da época, ele dirigia um carro velho, cujo motor, pelo barulho, parecia prestes a fundir. Surrado, sujo e amassado, o conversível ficou famoso.
Também o charuto vagabundo que vivia em sua mão, e que ele acendia e reacendia tirando baforadas fedorentas (era possível sentir o odor através da tela!), fazia parte da caracterização. Por vezes, quando ia aplicar as técnicas “torturantes” levava seu cachorro.
O seriado teve vilões clássicos, como o enólogo interpretado por Donald Pleasance, que mata o irmão que decidira vender os vinhedos da família; o cantor gospel assassino interpretado por ninguém menos que Johnny Cash; o maestro frio e calculista vivido por John Cassavetes. Teve também vítimas memoráveis, como o escritor de best-sellers interpretado por Mickey Spillane.
O tenente Columbo era o tipo de detetive que não chamava a atenção. Não era do tipo de sair dando socos e tiros, nem de sair em loucas perseguições automobilísticas. Também não era o detetive que seduzia mulheres; muitas vezes mencionava sua esposa e era o inverso do galã americano tradicional, mas conseguia desvendar os mais complicados casos de assassinato.

Peter Falk interpretou Columbo pela última vez em 2003. Havia sido o tenente pela primeira vez em 1968: por pouco não completou 40 anos como o mais sagaz dos detetives da televisão.
Até a próxima!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A grande arte

A grande arte

Na semana passada falamos um pouco sobre o romance policial no Brasil, especialmente da primeira tentativa que foi O Mistério. Desde então, muita gente se aventurou nesta área. Acredito que a linha de sátira teve seu ápice com o detetive Ed Mort, personagem criado por Luís Fernando Veríssimo como uma paródia das histórias de crime norte-americanas.
Mort é um detetive particular trapalhão, sempre sem dinheiro, que se mete em todo tipo de encrencas. Divide seu espaço — um escritório em Copacabana, que ele chama apenas de “escri” porque é muito pequeno — com 117 baratas e um rato albino chamado Voltaire. A estrutura dos contos é sempre a mesma: Ed Mort está desocupado e sem dinheiro em seu escritório, chega uma mulher e pede que ele localize seu marido. Ele o faz e, por algum motivo, a cliente não o paga.
O exagero é o principal recurso cômico de Veríssimo. Parodiando os protagonistas das narrativas noir, que são normalmente rudes e sem recursos financeiros, Ed Mort apresenta estas características multiplicadas: “…respondi, arranjando as sobrancelhas na posição “Cínico Sim Mas Você Pode Me Recuperar”; ou “Meus móveis eram escandinavos. Caixotes de bacalhau Norueguês”. Era tão desprovido de recursos financeiros que até a caneta que usava era alugada.
No que diz respeito às mulheres, Ed realiza grandes investidas, só que apenas em sua imaginação: “Convidei-a a fazer amor oriental comigo. Algo envolvendo caligrafia, arroz e as sete safadezas de Lao-tsé. Isto em pensamento, claro.”
Em 1997, Ed Mort virou filme, dirigido por Alain Fresnot, com roteiro baseado no conto “Procurando o Silva”. O detetive foi interpretado por Paulo Betti.
Além da sátira, podemos afirmar que no Brasil houve também tentativas muito bem-sucedidas de uma literatura policial séria. Vários autores como Marcos Rey, Fernando Sabino, José Louzeiro e outros escreveram narrativas policiais.
Em 2004, a Editora DBA resgatou uma coletânea do contos muito importante: A ideia de matar Belina, de Luiz Lopes Coelho, reeditado justamente por ser um elo perdido (e reencontrado pela editora) entre a tradição anglo-americana do romance policial e a moderna narrativa criminal brasileira. O detetive de Luiz Lopes Coelho, Dr. Leite, é o primeiro exemplar de uma galeria de investigadores. Os contos são realmente deliciosos e têm um sabor da belle époque paulistana, descrevendo lugares onde se reunia a elite, como o Jóquei Clube. Com o retorno do detetive Dr. Leite à cena do crime a Editora DBA fez justiça ao charmoso e bem-humorado introdutor de nosso romance criminal.
No entanto, podemos afirmar que o grande marco da literatura policial brasileira é Rubem Fonseca, que se tornou, a partir de meados dos anos 1970, um sucesso de vendas. Desde o livro de estreia — os contos de Os prisioneiros, publicados em 1963 — a temática da violência tem sido central em sua produção. Em 1975 foi publicado o Feliz Ano Novo, que foi interditado pela censura federal em 1976. A polêmica criada pela interdição propiciou uma divulgação ainda maior de sua obra.
Rubem Fonseca geralmente retrata, em estilo seco e direto, a luxúria e a violência urbana em um mundo onde marginais, assassinos, prostitutas, miseráveis e delegados se misturam. Retratar a História através da ficção é também uma marca de Rubem Fonseca, como nos romances Agosto, seu livro mais famoso, em que retratou as conspirações que resultaram no suicídio de Getúlio Vargas; e em O Selvagem da Ópera, em que retrata a vida de Carlos Gomes; ou ainda em Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, que retrata A Cavalaria Vermelha, livro de Isaac Babel.
Para protagonizar alguns de seus contos e romances, Fonseca criou um personagem antológico: o advogado Mandrake, mulherengo, cínico e imoral, além de profundo conhecedor do submundo carioca. Mandrake foi transformado em série para a rede de televisão HBO, com roteiros de José Henrique Fonseca, filho de Rubem, e o ator Marcos Palmeira no papel-título. A série foi baseada nos livros A Grande Arte e Mandrake, a Bíblia e a Bengala.
Mandrake é um advogado do Rio de Janeiro especializado em resolver casos de chantagem e extorsão, que se envolve tanto com indivíduos da alta sociedade carioca quanto com as camadas mais baixas da sociedade. Seu trabalho é lidar com esses elementos para ajudar seus clientes.
A produção de Rubem Fonseca propiciou certa “retomada de fôlego” do gênero policial no Brasil e se tornou referência para os escritores que se seguiram. Apesar de muitas vezes classificado como autor de literatura policial, especialmente pelos contos em que usa o personagem Mandrake, apenas nos romances A grande arte e Bufo & Spallanzani ele usa as técnicas narrativas clássicas do romance policial.
A grande arte é uma história de verdades e fachadas, de colunáveis e respeitáveis corruptos de luvas brancas e de pequenos marginais de mãos ensanguentadas; de violências legalizadas e de massacres físicos. O papel do Brasil na rota internacional da cocaína é um dos dados de ação do livro. A trama básica conduz o texto, por um lado, a abordar o crime de “colarinho branco” organizado e, por outro, a tematizar uma questão que paira no horizonte da literatura policial – a do homem como possível leitor de signos e possível agente de seu destino, em contraponto ao homem enquanto paciente de um destino que lhe é ininteligível e inexorável. O romance teve uma versão fantástica para o cinema, a começar pela primeira tomada, uma aproximação dos arcos da Lapa.
Em Bufo & Spallanzani, Ivan Canabrava é um detetive da Companhia Panamericana de Seguros que está investigando o caso de um fazendeiro que morreu pouco após fazer um seguro de um milhão de dólares. Desconfiado de que a empresa onde trabalha esteja sendo vítima de uma fraude, Ivan passa a investigar a viúva e descobre, no apartamento do casal, um sapo morto e uma planta exótica. Pesquisando sobre o assunto, com a ajuda do cientista Ceresso e da jovem Minolta, Ivan passa então a se envolver cada vez mais com suas investigações, o que desagrada seu chefe.
Como podemos ver, tanto a sátira como a versão séria têm gente de peso como seus representantes, provando que o romance policial é A GRANDE ARTE.