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terça-feira, 3 de abril de 2012

Hitchcock, o mestre do suspense

Hitchcock, o mestre do suspense

Falando mais um pouco sobre as tramas policiais, não podemos deixar de fora o cinema. Roteiristas e diretores aproveitaram, e muito, a fórmula policial para prender seus expectadores na história. Desde que o cinema foi inventado, as tramas policiais, os thrillers, são os filmes de maior bilheteria.
Vou falar um pouco sobre Alfred Hitchcock: gênio do cinema e mestre do suspense. Podemos perfeitamente iniciar assim o perfil do melhor diretor de todos os tempos e responsável por nada mais, nada menos, do que alguns dos melhores filmes da história. Num tempo em que não existia computador, nem efeitos especiais, ele criava cenas de suspense fantásticas, que até hoje são analisadas e copiadas.
Os filmes de Hitchcock trouxeram inovações técnicas nas posições e movimento das câmeras, nas elaboradas edições e nas surpreendentes trilhas sonoras que realçam os efeitos de suspense e terror — o clima de mistério é acentuado pelo uso de música forte e dos efeitos de luz. Nos filmes “hitchcockianos”, a ansiedade do espectador aumenta pouco a pouco, enquanto o personagem não tem consciência do perigo. São apresentados dados ao espectador que o personagem do filme não sabe, criando nele uma tensão para saber o que acontecerá quando o personagem descobrir. Em “Psicose”, somente o espectador vê a porta se entreabrir, esperando algo acontecer enquanto o detetive sobe a escada.
A obra de Alfred Hitchcock é hoje admirada no mundo todo, e os jovens que o descobrem, graças a reprises de, além de “Psicose”, “Janela indiscreta”, “Um corpo que cai, “Rebeca, a mulher inesquecível” etc., passam a  admirá-lo imediatamente.

Cada um de seus trabalhos tem características únicas que, sem dúvida nenhuma, o transformou junto com seu talento no diretor mais famoso que já existiu. Nascido em Leytonstone, Londres, no dia 13 de Agosto de 1899, o inglês teve severa educação dos pais católicos, o que colaborou diretamente para seu interesse pelo crime.
Em 1919, com apenas 20 anos, conseguiu seu primeiro emprego na área cinematográfica, nos estúdios da Players-Lasky, onde fazia interlúdios de títulos nos filmes e aprendeu a escrever roteiros, editar e diversos outros recursos ligados à arte. Seu primeiro filme foi “The Pleasure Garden”, de 1925, apesar de ter substituído o diretor em “Always Tell Your Wife”, em 1922, e escrever roteiros desde 1923.

Em 1926, em seu terceiro filme, “O Inimigo das Loiras” (The Lodger), Hitchcock começou a nos encantar com seu dom de fazer suspense. Fala sobre Jack, um homem que é injustamente acusado de um crime após ser confundido com o estripador homônimo. Nesse mesmo ano, se casou com Alma Reville, e ficou com ela até que a morte os separou. Em 1928 nasceu Patrícia, que fez pontas em alguns filmes do pai (a secretária de “Psicose”, a irmã de “Pacto Sinistro” etc).
Hitchcock dirigiu filmes britânicos até “A Estalagem Maldita” (Jamaica Inn, 1939), quando se mudou para os EUA, contratado por David O. Selznick (produtor de “E o Vento Levou” e “Começou em Nápoles”). Deste contrato saiu um de seus maiores sucessos, “Rebecca: A Mulher Inesquecível” (Rebecca, 1940), a primeira fita do diretor a ganhar o Oscar de melhor filme.
A obra é realmente fantástica: fala de um homem viúvo que se casa com uma jovem, após falecer sua ex-mulher (interpretada por Joan Fontaine, que foi indicada ao Oscar pelo trabalho). Com o desenrolar da história, a menina sofre com a “sombra” da ex-mulher, perfeitamente representada pela empregada da casa, inclusive no visual — Hitchcock a vestiu com longos vestidos, que davam a impressão de fazê-la flutuar, afirmando e representando o fantasma da ex-mulher do dono da casa. Não se tratou apenas de mais um filme com uma bela história: Hitchcock confirma sua genialidade através das técnicas utilizadas, extremamente avançadas e cheias de recursos. A abertura já fala por si só: são longos planos em sequência, efeitos de luz e fumaça para já introduzir o público no clima de medo e suspense.
Ainda neste ano, Hitch produziu o ótimo “Correspondente Estrangeiro” (Foreign Correspondent, 1940), filme que trata de conspirações internacionais descobertas por um simples correspondente estrangeiro curioso. No ano seguinte, Joan novamente foi indicada ao Oscar, porém, desta vez, levando a estatueta para casa por seu trabalho em “Suspeita” (Suspicion, 1941), terceiro filme americano do diretor que começava a se consagrar um mestre em dirigir atrizes.
Diretor sempre muito inovador e criativo, nunca tinha medo de arriscar. “Festim Diabólico” (Rope, 1948), por exemplo, é um filme extremamente complexo e ousado. Em “Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954) criou uma enorme vizinhança nos estúdios da Paramount para ambientar sua trama de um jornalista com a perna fraturada que se envolve com as vidas dos vizinhos, ocupando assim o seu ócio e desconfiando de um assassinato cometido por um deles. James Stewart está impecável, Grace Kelly inesquecível.
No ano seguinte, dirigiu “Ladrão de Casaca” (To Catch a Thief, 1955), muito mais romance do que suspense, mas com uma temática secundária de crimes. É um de seus filmes com o qual o diretor menos simpatiza, talvez pelo fato de ter perdido sua loira Grace Kelly, que durante as filmagens conheceu o marido, o Príncipe Rainier de Mônaco e abandonou o cinema.
Em 1955, ganhou o seu próprio programa de televisão (“Alfred Hitchcock Presents…”), o que aumentou muito a sua popularidade e o transformou em um homem rico. O programa, que trazia diversos episódios com histórias de crimes e mistérios, durou até 1961.
“Um Corpo que Cai” (Vertigo, 1958) é considerado por muitos a obra máxima de Hitchcock. James Stewart encarna um detetive, prestes a se aposentar por um trauma do passado, que é contratado por um amigo para seguir sua mulher; desconfia que ela pode estar sendo possuída por um espírito, e acaba se apaixonando por ela. Depois que ela morre, tem que enfrentar todo o drama psicológico de acreditar que está sendo perseguido pela alma dela. O filme é um marco, fantástico em sua evolução, e serve de exemplo para as injustiças que a Academia comete: no Oscar de 1959, só foi indicado nas categorias de melhor som e direção de arte, e pelo menos levou a segunda estatueta para casa.
No seu clássico absoluto, a obra-prima “Psicose” (Psycho, 1960), Hitchcock quebrou todas as barreiras imagináveis do cinema. Além de rodá-lo propositalmente com um baixo orçamento, mostrou pela primeira vez na história do cinema um vaso sanitário (até então proibido pela censura); filmou todo em preto e branco (ignorando a tecnologia das cores para não criar um contraste com o sangue), escondeu uma forte sexualidade (a cena em que Norman vai atender o balcão e diz que estava comendo, quando na verdade estava transando com a protagonista), enfim, quebrou todas as barreiras possíveis e de tudo o que já havia criado antes. Isso, claro,  sem falar na maravilhosa história com uma surpreendente (e quase única) troca de protagonistas no meio da produção, executada perfeitamente. A cena do chuveiro é uma das mais clássicas já vistas, com o gênio utilizando calda de chocolate para representar todo o sangue visto em tela.
O diretor ainda usou e abusou de recursos especiais em seus voadores de “Os Pássaros” (The Birds, 1963) para perseguir sua protagonista. Encerrou sua carreira com “Trama Macabra” (Family Plot, 1976).
Com todos esses sustos e cinismo ao seu redor, é até irônico pensar que, na verdade, Hitchcock era um homem caseiro, amante de sua família e um ótimo gourmet. Falar sobre ele numa crônica é muito pouco. Com certeza falarei mais de uma vez sobre suas técnicas para criar suspense.
Até a próxima.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Advogados acima de qualquer suspeita

Advogados acima de qualquer suspeita

Logo que comecei a escrever sobre o gênero policial, mencionei que o primeiro detetive surgiu quando as grandes cidades começavam a se formar. O mundo, que passava por uma grande mudança, a revolução industrial, de lá para cá se tornou muito mais complexo. Não vou enumerar estas complexidades, pois uma crônica não seria suficiente.
No mundo moderno interagimos mais. No entanto, a natureza humana, sendo o que é, faz com que a interação gere disputas. Em gerações passadas, nossas diferenças eram geralmente dirimidas por instituições como igrejas, famílias, grupos comunitários. A maior parte da roupa suja era lavada em casa. Passado o sufoco após a Segunda Guerra, as pessoas passaram a apelar para os advogados. A resposta universal, aparentemente automática para qualquer erro ou prejuízo, é: “Vamos processar!”
As salas dos tribunais, nos últimos cinquenta anos, também se tornaram um caldeirão onde os valores nacionais são moldados. As cortes de justiça passaram a ser mobilizadas para arbitrar contendas de significação moral e até mesmo religiosa – direito de aborto, assédio sexual, discriminação baseada em preferência de raça, gênero sexual etc. As gerações que nos antecederam teriam certamente ponderado que estas questões eram inadequadas para o procedimento judicial; hoje, os tribunais têm a última palavra, e a roupa suja é lavada em público.
Na medida em que a influência de outras instituições sociais definhou, os tribunais preencheram a lacuna. Não é de admirar que as pessoas se mostrem curiosas sobre os mecanismos internos do judiciário. A partir desta modificação no sistema e na vida cotidiana das pessoas, nos Estados Unidos surgiram diversos livros em que o detetive é o advogado.
A fórmula “crime, investigação e solução” continua exatamente como nas histórias anteriores. A diferença é que a investigação em geral acontece nos tribunais. Quando o detetive aponta o criminoso, há uma sensação de que o mundo foi resgatado do caos, que a ordem foi restabelecida. Esta ordem estabelecida acontece no sentido legal, na medida em que os personagens se esforçam para compreender não apenas o que é certo e o que é errado, mas o sentido da justiça (um conceito mais difícil e ilusório) num mundo aparentemente mais injusto.
Foi neste mundo que surgiu Rusty Sabich, personagem de Scott Turow, no livro Acima de Qualquer Suspeita. Sabich, um promotor, descobre que sua colega Carolyn Polhemus foi assassinada de maneira brutal, e é obrigado por seu chefe Raymond a lidar com as investigações. Raymond quer se reeleger para o cargo que ocupa e concorre com Tommy Molto, que está de olho em Rusty e suas atividades.
É Tommy quem garante que Rusty estava no apartamento da morta no dia de seu assassinato e que deixou suas impressões digitais num copo. Rusty é preso e desprezado pelo chefe, que lhe nega apoio. Entra em cena um advogado que vai provar sua inocência com a ajuda do detetive Lipranzer, colega de trabalho de Rusty, e de Barbara, sua esposa.
Não posso afirmar que este tenha sido o primeiro detetive advogado. Mas foi o primeiro que eu li, e amei. E pasmem, a trama é a de Édipo! O personagem principal vai em busca de si mesmo… (Putz! contei o final da história!)
Édipo ouviu de Creonte que o antigo rei estava num comboio e tinha sido morto por salteadores; e anuncia que fará o possível e o impossível para capturar o assassino. Para ajudar na investigação, chama Tirésias, um velho cego que fica sabendo das coisas através do canto e do voo dos pássaros.
Este, porém, não quer falar sobre o acontecido, já que tal revelação poderia trazer mais infelicidade, principalmente para o rei. Após muitas ameaças deste, Tirésias diz que o assassino é o próprio rei. Édipo continua a investigação e acontece toda a tragédia para ninguém botar defeito!
“Acima de Qualquer Suspeita”, tornou-se filme em 1990, com direção de Alan J. Pakula, com ninguém menos que Harrison Ford no papel principal.
Além de Turow, John Grisham tem vários títulos nas nossas listas de mais vendidos, e teve todos os seus livros filmados. Seu primeiro livro foi Tempo de Matar, passado em um tribunal. O filme conta a história de Carl Lee, um pai que teve sua filha estuprada aos dez anos de idade por dois homens brancos, bêbados e racistas na cidade de Canton, no Mississippi.
Lee dispara tiros com uma metralhadora na entrada do julgamento (ainda não existiam detectores de metal), matando dessa forma os dois agressores. De quebra, deixa deficiente um policial que os acompanhava e se pusera na linha de tiro. Não vou contar o final!!
William Bernhardt criou o detetive Ben Kincaid. Seu primeiro livro, Justiça Cega, teve a mesma trajetória de sucesso.
Como vemos, a fórmula vai mudando, vai sendo adaptada ao momento histórico do planeta e consegue assim pegar o leitor. Até a próxima!