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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A fórmula, na França e no Brasil

A fórmula, na França e no Brasil

Na semana passada falamos um pouco sobre as damas do crime, seus cadáveres encontrados em ambientes fechados e bons detetives, conhecedores da alma humana, investigando e apontando o culpado. É preciso não esquecer de que todas elas se formaram na época em que Freud elaborava as bases das ciências psi, daí seus detetives serem tão versados no conhecimento da alma humana.
Em 1903 nasceu Georges Simenon, escritor belga de língua francesa. Foi um romancista de uma fecundidade extraordinária: escreveu 192 romances, 158 novelas, além de obras autobiográficas. Escreveu numerosos artigos e reportagens com seu nome e outro tanto sob diferentes pseudônimos.
Para a história do gênero policial, o que interessa é seu personagem, o Comissário Maigret, protagonista de 75 novelas e 28 contos. Vendeu milhares de livros em todo o mundo!
O Comissário Maigret surgiu em 1931. Fumante de cachimbo, usava sempre sobretudo de gola de veludo acompanhado do chapéu. Era um homem grande e gostava de boa comida. Pode-se dizer que Maigret rivaliza em prestígio com os mais famosos detetives da literatura policial, como Sherlock Holmes e Hercule Poirot; e é, sem dúvida, o mais humano.
Parisiense, vivia num apartamento no Boulevard Richard-Lenoir com sua esposa Louise. Simenon criou para seu personagem uma tranquilidade doméstica que ele próprio, segundo suas autobiografias e biografias, jamais teve. Maigret viveu apaixonado por sua esposa e sempre foi seu amigo e confidente. Enquanto resolvia seus casos, gostava de ir para a casa, conversar com sua esposa. A única pedra no seu sapato era o magistrado Cornelius.
Nas suas histórias, não existe um conhecimento muito profundo da alma humana. Maigret envereda pela psicopatologia do cotidiano (Freud, 1901). Gostava de ir ao local onde o crime havia ocorrido, em geral pequenas vilas francesas, e sentir a atmosfera, observar pequenos detalhes, como a maneira da mulher pegar no braço do marido e como se comportavam as pessoas no primeiro encontro; sentir os pequenos deslizes, pequenas coisas esquecidas em determinados locais.
Enquanto ele está “sentindo” o local, o leitor tem a sensação de que ele não está fazendo nada. Mas ele está observando todos os pequenos detalhes, uma observação sempre seguida de um olhar cético sobre a sociedade. E é por aí que os casos são resolvidos. Mais do que um crime a ser desvendado, é a correta colocação de cada personagem em seu ambiente e a valorização dos dramas humanos que fazem dele um autor consagrado.
Simenon usava um vocabulário relativamente pequeno, de 2 mil palavras, para escrever suas histórias. Propunha uma intriga simples, mas com personagens fortes, um herói humano, obrigado a ir ao fundo de sua lógica. A mensagem de Simenon é complexa e ambígua: nem culpados, nem inocentes, mas culpas que se engendram e se destroem em uma cadeia sem fim. Seus romances colocam o leitor em um mundo rico de formas, cores, sentimentos e sensações desde a primeira frase.
Seus melhores romances são baseados em intrigas e assassinatos nas pequenas vilas de províncias francesas. A investigação evolui à sombra de personagens de aparência respeitável, que engendram empresas tenebrosas. É nesse clima que o comissário Maigret come especialidades locais, bebe boas bebidas e acaba apontando o assassino.
Até aqui, falei bastante sobre o policial europeu. No entanto, é preciso saber que aqui no Brasil, em 1920, escreveu-se a primeira narrativa policial de que se tem notícia. Foi publicada em capítulos pelo jornal A Folha a partir de 20 de março, e editada em livro no mesmo ano. A narrativa, chamada O Mistério,  foi escrita por quatro escritores, ou seja, a oito mãos: Coelho Neto, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque e Viriato Corrêa. Além deles, o exemplo mais famoso de parceria em policiais é a dupla de primos norte-mericanos Manford Lepofsky e Daniel Nathan, que criou o autor detetive Ellery Queen.
No caso de O Mistério, a parceria se dava com cada um dos autores escrevendo um capítulo e o próximo deveria continuar dali, sem um planejamento prévio. No romance, temos o Major Mello Bandeira, detetive policial encarregado de investigar um caso de assassinato. Ele é relacionado à literatura policial europeia e descrito como o “Sherlock da cidade”. Esta característica acaba sendo motivo de situações cômicas. Ao tentar aplicar métodos científicos tecnológicos de investigação na linha Holmes, o Major Mello Bandeira acaba por se dar mal e por ser alvo da ironia dos companheiros. Ao colocar cães rastreadores no encalço do criminoso, eles acabam se voltando contra o próprio investigador, que esqueceu em seus bolsos as luvas e os sapatos do assassino.
Mello Bandeira procura ser, como Holmes, uma máquina de raciocinar. Mas o surpreendemos em uma atitude carinhosa com uma das moças detidas para investigação. Tal deslize, naquele que pretendia ser o protótipo da máquina de pensar, não é perdoado por Medeiros e Albuquerque, que faz com que a personagem se suicide.
Como podemos ver, a fórmula, aos poucos foi evoluindo segundo o pensamento da época e se espalhando pelo mundo, chegando até o Brasil.
Até a próxima!

domingo, 14 de agosto de 2011

Damas do crime

Damas do crime

Depois da fantástica dupla Sherlock Holmes e Watson, tivemos alguns outros autores de livros policiais, mas o fato marcante foi a chegada de Agatha Christie, por muito tempo a grande dama no mercado editorial mundial, só vendendo menos do que a Bíblia. Os críticos a crucificavam por ela usar uma única fórmula em suas narrativas. No entanto, é preciso reconhecer que ela usou a “formula” com muita habilidade. Julgamentos à parte, ela ocupa um capítulo especial dentro de uma literatura chamada “de massa”. E, a exemplo do que Conan Doyle fazia muitos anos antes, costuma viciar seus leitores.
Agatha Christie se situa no melhor da tradição inglesa, a das histórias de detetive que usam mais o intelecto do que os punhos. Na sua época, a polícia já contava com a Scotland Yard e diversos recursos para descobrir os criminosos. Os detetives de Agatha Christie investigam casos, baseando-se no profundo conhecimento da alma humana.
Seus detetives são Miss Marple e Hércule Poirot. Eles não têm aquele amigo que os admira e narra os acontecimentos para o leitor. Seus casos se passam sempre na aristocracia inglesa. O ambiente é refinado. O desenlace também é clássico. O detetive reúne os suspeitos e, com lógica implacável, demonstra quem é o assassino.
De nacionalidade belga, Poirot é um personagem extremamente extravagante. Não é nada modesto, e está sempre se gabando da forma como usa as suas “células cinzentas”. Possui um grande e belo bigode que é o que melhor o identifica, e tem sempre uma aparência elegante e impecável. Ele é um grande fã da ordem e do método, daí estar sempre impecavelmente vestido. Em certos momentos, chega a ser rabugento. O personagem apareceu pela primeira vez em 1921, no romance O misterioso caso de Styles.
Ao contrário dos outros grandes detetives da Scotland Yard, Poirot diz que pode resolver um crime estando “apenas sentado na sua poltrona”. Ele compara os seus colegas a “cães de caça humanos”, pois eles usam pequenas pistas no chão, pegadas e impressões digitais como método de trabalho. Além de “pequenas células cinzentas”, Poirot usa como único meio a psicologia humana. Não é um detetive de ação, mas meramente dedutivo, que para resolver seus crimes prefere interrogar todos os envolvidos; porém, muitas vezes, precisa investigar a pedido de seu amigo Hastings, ou por extrema necessidade.
A outra detetive de Agatha Christie é uma mulher. Miss Jane Marple é uma anciã que mora na pequena aldeia inglesa de St. Mary Mead. Aparentemente é uma idosa comum, que se veste sem muita classe e é vista frequentemente tricotando e tirando ervas daninhas de seu jardim. Às vezes, é considerada confusa ou caduca, mas quando passa a resolver mistérios, mostra ter uma mente lógica e afiada, e um conhecimento incomparável da natureza humana com todas suas fraquezas, forças, truques e excentricidades. Sua primeira aparição foi em 1930, no romance Assassinato na Casa do Pastor.
Ao todo, Agatha Christie é autora 66 novelas policiais, 163 histórias curtas, duas autobiografias, vários poemas, e seis romances “não crime” sob o pseudônimo de Mary Westmacott. Pioneira em criar desfechos impressionantes, verdadeiras surpresas para os leitores, seus textos seguem fascinando as novas gerações.
Além de Christie, podemos falar que as damas do crime são basicamente as inglesas P.D.James, Ruth Rendel e Dorothy Sayers e a americana que viveu na Europa, Patricia Highsmith
Como seus detetives, P. D. James criou o comandante Adam Dalgliesh, Ruth Rendel o inspetor Wexford e Dorothy Sayers o Lord Peter Wimsey. A exemplo de Agatha Christie, todas elas criavam tramas em que o cadáver aparecia em locais fechados, em geral localizados em pequenas comunidades e descritos como ecos das clássicas histórias inglesas. Todas mostravam o ambiente refinado da aristocracia inglesa. O desenlace também é clássico, o detetive reunindo os suspeitos e demonstrando quem é o assassino.

Uma grande mudança acontece com Patrícia Highsmith (1921-1995), americana que viveu na Inglaterra e na Suíça. Ela estreou com Pacto Sinistro, que foi filmado por Hitchcock. Das damas do crime, é a que saiu dos padrões clássicos, talvez até por sua sexualidade extravagante para a época: era lésbica declarada.

Em 1955, publicou a primeira história da série Ripley, o anti-herói. Na época, os romances policiais se equilibravam entre o crime e as três decorrências lógicas: a investigação, o criminoso e a solução. O escritor mantinha o foco na investigação. Uma das estratégias da autora para manipular a convenção foi girar o triângulo e centrar a narrativa no criminoso, ao invés de na investigação. Com isso, ela minimiza o suspense; destaca as “motivações” do seu anti-herói e as “consequências” de seus atos.

Bem, aos poucos vamos vendo as mudanças! Até a próxima!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Elementar, meu caro Watson

Elementar, meu caro Watson

Na semana passada falamos sobre a fantástica criação da figura do detetive como personagem de ficção. Isto aconteceu quando, em 1841, Edgar Allan Poe apresentou Auguste Dupin.
Hoje, ao lermos seus contos, os argumentos podem nos parecer um pouco ingênuos. Mas na época, os primeiros leitores de ficção policial ficaram maravilhados. Poe queria que o gênero policial fosse intelectual/fantástico, fruto não apenas da imaginação, mas especialmente da inteligência. Por ser americano, ele poderia ter situado seus crimes em Nova Iorque, mas assim o leitor ficaria imaginando se as coisas se desenvolveram realmente desse modo, se a polícia de Nova Iorque age desta ou daquela maneira. Tornou-se mais cômodo e mais livre que tudo ocorresse em Paris, no bairro deserto de Saint-Germain. Por isso, o primeiro detetive da ficção policial é um estrangeiro, um francês.
Por que um francês? Porque quem escreve a obra é um americano que necessita de um personagem distante. Para fazer com que seus personagens se tornem invulgares, mostra-os vivendo de uma maneira diferente da dos outros homens. E também o investigador era um aristocrata e não um policial. Com isso, ele já coloca um pouco em ridículo a polícia e seus métodos, que não são frutos das deduções da inteligência, estabelecendo alguns padrões que foram seguidos por vários autores. O narrador é amigo/discípulo do investigador, a reflexão predomina sobre a ação, o final precisa surpreender o leitor.
Para nos situarmos no tempo, Poe publicou Os Crimes da Rua Morgue em 1841. Em 1887 surgiu Um estudo em Vermelho, que apresentava ao público o maior detetive de todos os tempos: Sherlock Holmes.
Criado pelo britânico nascido na Escócia Conan Doyle, Holmes é o detetive que, quando o autor se cansou dele e o matou, teve que ser ressuscitado. Seus leitores o amavam tanto que o exigiram de volta!
Suas histórias são contadas pelo médico, amigo e admirador, Dr. Watson. Falar sobre esta dupla é uma ousadia diante dos milhares de biografias e estudos que existem a seu respeito. Como temos falado da criação da personalidade do detetive, vamos nos ater a essa parte. Dupin aparecia nas narrativas de Poe apenas como uma “maquina de pensar”. Sherlock Holmes, além de ser um detetive com mente dedutiva, mostra uma personalidade marcante. Holmes, entre outras características, tem profundas crises de melancolia e se deleita tocando violino.
Segundo alguns indícios que seus biógrafos captaram, Holmes nasceu em 6 de Janeiro de 1854 , filho de um agricultor e de uma mãe de origem francesa, pois sua avó era filha do pintor Horace Vernet. Seu irmão mais velho, Mycroft, trabalhava para o Serviço Secreto britânico. Mycroft passava a maior parte do seu tempo livre no Diogenes Club. Segundo Holmes, seu irmão Mycroft não somente era mais brilhante do que ele próprio, como também possuia um senso de observação e dedução muitas vezes superior ao seu. Numa das aventuras de Holmes, onde ele encontra o seu irmão Mycroft diante do Diogenes Club, os dois mantêm um diálogo recheado de deduções sobre um transeunte que deixa Watson completamente atônito.
Após os seus estudos, o jovem Sherlock Holmes instala-se como detetive em Londres, onde divide um apartamento no famosíssimo endereço em Baker Street. Até hoje muita gente visita o endereço, com a certeza de que Holmes e Watson lá viveram.
Poe não informa ao leitor nenhuma característica do seu narrador. Não se sabe seu nome, sua aparência física, sua idade. Sabe-se apenas que ele é um amigo fiel e companheiro de moradia de Dupin. Conan Doyle transforma o narrador. Criou um personagem com uma inteligência um pouco inferior à do leitor, a quem chama de Dr. Watson. Ele não para de se maravilhar e é sempre influenciado pelas aparências, deixando-se, por gosto, dominar por Sherlock. Relata suas proezas intelectuais, ajudando o leitor a se adiantar ao narrador na solução do enigma.
Assim, se muitas vezes o leitor não consegue acompanhar os elos das equações mentais do detetive, sente-se, por outro lado, gratificado pela sensação de superioridade mental em relação ao narrador: elementar, meu caro Watson!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

E terminando com um final feliz

E terminando com um final feliz

Na semana passada falamos sobre a criação da fantástica fórmula literária: crime, investigação e solução. É como a invenção da roda: nos dias de hoje ninguém se pergunta como alguém teve essa ideia, e com o romance policial acontece o mesmo. O leitor devora o livro e basta. No entanto, uma pesquisa minuciosa vai nos levar a entender melhor a criação desse homem que é uma máquina de pensar. Allan Poe soube captar a essência de sua época.
Quando engendrou Os Crimes da Rua Morgue, a filosofia corrente era o positivismo, que considerava como único conhecimento legítimo o que se encontrava nas ciências naturais, baseado na observação, experimentação e utilização de conceitos matemáticos. Acreditava-se que a ciência deveria se basear na evidência (que fornece ideias claras e distintas) e na dedução que as encadeia (técnica que o primeiro detetive vai usar). Na mesma época, Comte criava a sociologia, uma ciência fundada na análise de fenômenos diretamente observáveis.  Era também a época em que Charles Darwin, baseado na observação da natureza, estava formulando o seu livro A Origem das Espécies.
Foi baseado na observação que, aos poucos, percebeu-se que mesmo no anonimato da cidade grande o criminoso deixava marcas. Ninguém se deslocava sem deixar traços. Muitos foram os folhetins publicados na imprensa da época que falavam de violência e crimes. No entanto, foi Edgar Allan Poe quem criou um homem genial, capaz de observar cientificamente cada um dos traços deixados pelo criminoso e, através deles, detectar o assassino.
Esse homem genial também recebeu uma pitada de influência do romance de cavalaria do final do período medieval, feito de um enredo cheio de suspense e violência e que tinha como propósito o modelo cristão em que os cavaleiros do bem, que em geral saíam em busca do santo Graal, vencessem o mal após muitas e variadas peripécias. Chandler, num ensaio, fala do detetive como um cavaleiro errante pelas ruas de Los Angeles, a cidade grande. Acredito que o romance policial traz também dos romances de cavalaria a sua carga mítica: a grande luta do bem contra o mal que termina por apontar o criminoso.
O fato é que apesar de boa parte dos críticos considerarem a literatura policial como um gênero menor, ela é um dos gêneros mais lidos no mundo. Seu público é eclético e variado: adolescentes e idosos, profissionais liberais, intelectuais, professores universitários, pesquisadores, homens e mulheres, aposentados etc. Ainda não existem estudos definitivos para explicar o porquê desse gosto do leitor. Talvez a explicação seja que o uso da fórmula (crime, investigação e solução) na construção literária traga em si uma grande carga mítica, um arquétipo, pois satisfaz as exigências de vitória do bem contra o mal. Existe também um grande desafio intelectual entre o leitor e o detetive. O leitor segue o raciocínio lógico e, junto com o detetive, tenta desvendar o crime. Quando finalmente o detetive captura, ou simplesmente aponta o criminoso, há uma sensação de que o mundo foi resgatado do caos, que a ordem foi restabelecida.
Como vimos, foram necessários séculos de História e Civilização — e uma conjunção de revolução industrial, literatura gótica, romances de cavalaria e filosofia positivista — para que Allan Poe juntasse tudo isso numa coqueteleira, chacoalhasse bem e produzisse o detetive, esse homem genial que proporciona aos leitores o prazer de enveredar num cotidiano repleto de minúcias, onde o raciocínio lógico deságua num final feliz, diferente do que vemos acontecer na realidade dos dias de hoje: o bem sempre vence o mal, como no mundo mágico dos contos de fadas! Com tudo isso, é fácil se tornar uma addict!
Se você gostou, acompanhe a coluna. Quarenta anos depois, Sir Arthur Conan Doyle usou a fórmula com maestria! Um estudo em vermelho! Até lá!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Começando pelo final feliz

Começando pelo final feliz

Quando aprendi a ler, minha primeira leitura foi Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, livro que tenho até hoje. Na sequência, devo ter lido uns tantos livros, mas o real prazer da leitura veio com os protagonizados por Dr. Watson e Sherlock Holmes. Era delicioso me deixar levar pelo encantamento de Dr. Watson diante da fantástica capacidade de pensar de Sherlock, além de poder conhecer detalhes interessantes da Londres da rainha Vitória. O tempo foi passando e eu me tornando uma addict em literatura policial, em enigmas bem montados. Verdadeiras equações matemáticas!
Como em todos os gêneros, no policial também há livros ótimos, maus, bons e regulares. Há também os que a gente gosta ou não, independente do que diz a crítica. É preciso ir lendo e formando uma biblioteca dos que valem uma releitura. Nas “crises de abstinência”, é importantíssimo ter algo de boa qualidade bem à mão!
A literatura policial não trabalha com grandes questões filosóficas, mas com a vida no seu dia a dia, a morte como parte da vida. A característica marcante dos detetives é sua capacidade de observação das minúcias, despercebidas aos olhos das pessoas comuns. É através dessas pequenas pistas perdidas no cotidiano que o detetive chega ao criminoso e aponta o culpado, fazendo com que o bem vença o mal. Ou seja, que o livro tenha um final feliz!
Da mesma forma que nos romances de amor o mocinho tem que acabar se casando com a mocinha, no romance policial o leitor precisa saber quem matou, de alguma forma ver que houve uma punição. Coisa que não acontece na vida real, especialmente na nossa política. Na ficção, o leitor de romances policiais exige um final feliz!
Quando criei o detetive Alyrio Cobra, busquei a origem desse gênero literário. Se pensarmos em crime e mistério, podemos afirmar que são dos enredos usados desde sempre, tanto na vida real como na literatura. No Gênesis e nas tragédias gregas encontramos muitos crimes. Segundo a Bíblia, a vida na terra, fora do Paraíso, começa com Caim matando Abel! Ou seja, com um crime! No caso, não foi necessário um detetive. Deus tudo via, não precisou de nenhuma artimanha para apontar o assassino.
Desde o registro desse primeiro crime, foram necessários muitos séculos de História e Civilização para se criar o primeiro detetive! E o primeiro homem genial, capaz de detectar as marcas deixadas por um criminoso foi o detetive Auguste Dupin, criação de Edgar Allan Poe. Na árvore genealógica da literatura policial, Allan Poe é o tronco principal, o grande precursor. Quando publicou Os Crimes da Rua Morgue, e em seguida O Mistério de Marie Roget e A Carta Roubada, deu início a uma das mais fantásticas fórmulas literárias de todos os tempos — crime, investigação e solução, que vem se repetindo até nossos dias com estrondoso sucesso.
O detetive é uma máquina de pensar que a partir de vestígios, pistas e indícios, consegue, através de uma dedução lógica rigorosa, reconstruir toda a história da criatura que praticou o crime. Para engendrar essa figura, Allan Poe teve que incorporar muito bem o espírito da época em que viveu.
Vamos dar uma olhada por lá! Em meados do século XVIII, quando o detetive Auguste Dupin estava sendo elaborado, a revolução industrial, com seus motores movidos a vapor e suas locomotivas, trazia mudanças bastante significativas ao mundo civilizado. Uma delas foi o surgimento das grandes cidades. Também foi uma época em que os ricos ficaram mais ricos; e nas cidades, se juntavam os pobres que ficavam mais pobres. Surgia a miséria. Na literatura, o gênero era o gótico — que se alimentava do cenário arquitetônico das cidades, especialmente os becos sujos, povoados de pessoas miseráveis, vivendo de restos de lixo. O gótico alimentava-se também do sobrenatural nos monastérios e igrejas, com sua arquitetura fantástica que incitava aparições. Era nessa atmosfera que se ambientavam as histórias de horror, de crimes misteriosos, onde muitas vezes intervinham forças misteriosas. Foi a partir desses cenários que se criaram a novela de terror, a de ficção científica e a policial.
Com o surgimento das grandes cidades, e da consequente concentração de população, apareceu a ideia de anonimato — situação muito propícia ao crime e ao criminoso, que já não era um elemento conhecido em sua comunidade, mas um anônimo. Acreditava poder cometer o delito e facilmente se perder na multidão. Por outro lado, o aparecimento desse homem que praticava delitos fez com que a polícia começasse a se organizar de forma sistemática.
O romance policial, com seu detetive, precisou de mais alguns truques! Por estar escrevendo uma crônica, não vou me alongar. Se você ficou curioso, leia na próxima semana a continuação!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Cinderelas

Cinderelas

Sempre admirei muito as damas do crime. Numa de suas entrevistas, P. D. James fala que o gosto pelo detalhe e o interesse pelas emoções explicam o sucesso das mulheres nas histórias detetivescas. Será que o olhar feminino dá qualidade à literatura policial?
A Própria P. D. James responde: “Na história detetivesca clássica, que depende de pistas cuidadosamente distribuídas e raciocínio preciso para criar uma trama, as mulheres realmente têm se saído muito bem. Talvez porque nós sejamos interessadas nas emoções humanas, em vez de nas armas ou na violência. Nós tratamos da reação das pessoas ao crime. E claro que a criação de pistas depende de ter um olho para o detalhe e as mulheres são detalhistas.”
Agora que Peças Fragilizadas está começando a fazer parte das histórias de detetive bastante lidas, mais uma vez pensei nas minhas inspiradoras damas. P. D.James está com quase 90, anos e no seu site oficial está lançando um novo livro. Eu gostaria muito de chegar lá!
Como eu, ela também é uma Cinderela. Nós sempre pensamos em Cinderela como a mulher fútil sonhando com o príncipe encantado. Esta é a parte do sonho da Cinderela e também a parte que as pessoas da linha psi estudam. Na vida real, isto é, ficcional, Cinderela teve que lavar todo o castelo, muito bem lavado, para poder ir ao baile! Esta é a história do conto de fadas cuja origem se perde na antiguidade, e talvez seja a sina da mulher em qualquer época.
P. D. James se casou, teve filhos e tinha 19 anos quando a segunda guerra estourou. Ela vivia em Londres, com muitos bombardeios e um futuro incerto. Seu marido foi convocado para a guerra. Anos depois, voltou para a casa com sérios problemas mentais. Com duas filhas pequenas, ela teve de procurar trabalho para sustentar a família. Foi funcionária pública, trabalhando na área de saúde e na polícia. Ou seja, lavou o castelo bem lavadinho, e então pode realizar o sonho de escrever. Mesmo assim, bolava suas tramas no caminho para o trabalho e escrevia nos finais de semana. Publicou seu primeiro livro O Enigma de Sally na maturidade. E foi um tremendo sucesso. Seguiram-se treze romances que consolidaram sua reputação como escritora de romances policiais. Hoje é uma das escritoras mais lidas do mundo.
Ela criou o investigador comandante Adam Dalgliesh, e o fez inteligente e perspicaz, sensível e corajoso. E além disso, também poeta. Ou seja, ela deu-lhe também um talento artístico. Além dos muitos livros em que ele aparece, também é personagem de filmes e séries de TV.
Como ela mesma afirma, nos livros policiais, de Ágatha Christie a John Le Carré, com suas novelas de espionagem, a estrutura geral é sempre a mesma: existe um crime misterioso, em geral um assassinato, um pequeno grupo que teve meios, motivo e oportunidade, um detetive que investiga as pistas; e, no final da história, chega-se à solução. Esta fórmula inclui muitos talentos e muita diversidade. Ágatha Christie ambientava suas histórias em locais fechados, John Le Carré usa a guerra fria e ambienta seus personagens por todo o mundo, em ambientes abertos e fechados!
Desde que Edgard Allan Poe criou a fórmula de crime, investigação e solução, muitos escritores a vêm usando de forma original. Cada um tem vivências diferentes, vê o mundo de uma forma, nasceu num país diferente. P. D. James é realmente uma dama do crime. Uma das melhores!
Além de escritora, em 1991, recebeu da Rainha Elizabeth o título de baronesa James de Holand Park e integra a bancada conservadora da Câmara dos Lordes da Inglaterra.
Até a próxima.