Páginas

domingo, 20 de maio de 2012

Noir malandro

Noir malandro

Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato, foi um escritor de fôlego. São Paulo foi a capital inspiradora desse escritor de múltiplas mídias e gerações: são mais de cinquenta livros, entre romances, contos, novelas e ensaios. Escreveu crônicas e contos, se destacou escrevendo romances para o público juvenil e escreveu também várias obras literárias para adultos. Durante os anos 1970 foi roteirista de diversos filmes do gênero pornochanchada, produzidos na Boca do Lixo, em São Paulo, como “As Cangaceiras Eróticas” e “O Inseto do Amor”.
Sempre gostei das histórias de Marcos Rey. Meu personagem Alyrio Cobra, como ele, é um paulistano que transita no cenário da cidade de São Paulo. O escritor faleceu no dia 1º de abril de 1999, aos 74 anos. Foi cremado e, um mês depois, sua esposa sobrevoou o centro da cidade com um helicóptero, espalhando as cinzas sobre São Paulo e realizando assim a reunião eterna de Marcos Rey com a metrópole que foi a grande personagem de toda a sua obra.
Nos tempos em que a Livraria Cultura do Conjunto Nacional era um local de encontro de escritores, todos os sábados, lá pelas 11 da manhã, Marcos Rey batia ponto por lá. Havia um grupo muito grande que frequentava o local do qual ele fazia parte, sempre animado, contando detalhes de suas aventuras literárias.
Rey usou a fórmula policial, e se poderia dizer que foi o precursor de Jô Soares, com seu policial cheio de ironia. Beirando o cronista, mas não o sendo, consegue em seus livros retratar o cotidiano paulistano de meados do século passado; na verdade, usa e abusa do humor, tornando a leitura de sua obra ainda mais interessante. Seus protagonistas são figuras típicas da cidade e vale a pena um olhar sobre eles.
Em sua larga obra, Malditos Paulistas é um ótimo exemplo, um romance que mistura a veia policial e o picaresco. A narrativa está centrada na trajetória singular de Raul, um carioca na faixa dos trinta anos que já fez muita coisa na vida, mas em nenhuma de suas atividades logrou sucesso. Desiludido, decide tentar a sorte em São Paulo, onde amplia suas experiências profissionais: trabalha como instrutor de natação, figurante de novela, garçom de cantina no Bixiga. Um anúncio classificado “Precisa-se de motorista” muda sua sorte na capital paulista. Ele vai trabalhar de motorista particular para Duílio Paleardi, que mora numa mansão do Morumbi. Ali, Raul se ocupa de flertes fortuitos com as empregadas e com a patroa, até que encontra, na garagem da mansão, uma marionete vestida de Carmem Miranda. A descoberta promove uma virada nos rumos da história, transformando-a numa narrativa vertiginosa em torno das investigações de Raul sobre os negócios escusos de Paleardi.
Num “noir” tipicamente brasileiro, Raul é o protótipo do pequeno malandro. Depois que lemos no primeiro parágrafo do livro o anúncio do emprego em que “dispensam-se referências”, a primeira dica sobre a personalidade de Raul aparece logo no segundo, quando ele pensa: “O emprego é para mim”.
A alusão deixada em aberto nessa primeira passagem é preenchida a seguir, quando Raul nos conta resumidamente seu currículo profissional: salva-vidas, cabo eleitoral, motorista, garçom, extra de telenovela, instrutor de natação, não sem antes avisar que não é motorista por vocação: “Meu sonho brasileiro, acalentado em mil camas e tipos de colchões, era ter um belo emprego público, que atrelasse meu pequeno destino ao glorioso futuro da Nação, mas à falta de um curso ginasial completo, cartuchos e pistolões, meu nome nunca foi impresso no Diário Oficial.”
A afirmação do “sonho brasileiro” de um “belo emprego público…” é intercalada pelo aposto de que esse sonho era “acalentado em mil camas e tipos de colchões”, o que insere o caráter errante da personagem e seu aspecto de volubilidade sexual — muitas mulheres, apartamentos no Guarujá e bares ao redor do porto, tudo isso envolve o personagem, que não cessa sua busca por respostas e por justiça (pessoal, claro).
No decorrer da história, o protagonista vai nos oferecendo outras características, sempre mobilizando algum recurso cômico. Por várias vezes Raul tem relações sexuais de maneira utilitária, ou seja, para conseguir vantagens; também ensaia alguns passos como chantagista, mas percebe-se que não é um contraventor real — só quer ver se “descola algum”. Mesmo ao chantagear contrabandistas Raul não deseja mexer com armas, ou seja, até em atividades “não louváveis” ele não quer se arriscar muito, É o malandro típico, que mesmo na contravenção só quer aquilo que não seja perigoso — atividades que não requerem o uso da violência, mas somente daquilo que Raul sabe que tem: “cabeça, picardia, manha e cancha”.
Claro que ele gostaria muito mais de ver seu nome no Diário Oficial numa nomeação, com um belo salário, ou seja, numa boa “mamata”. Usando a fórmula policial e criando um fantástico suspense, Marcos Rey nos mostra a alma do pequeno malandro que, em não descolando uma “mamata” do Estado, se deixa envolver pelo mundo das mansões do Morumbi onde as pessoas não são tão corretas assim, e de apartamentos no Guarujá, reduto dos ricos em meados do século passado.
Até a próxima!

terça-feira, 15 de maio de 2012

Nem só de crimes vive a literatura policial

Nem só de crimes vive a literatura policial

Quem gosta de História e História da Arte, especialmente a italiana, e mais especificamente a de Veneza, não pode deixar de conhecer o investigador Guido Brunetti, criado pela norte-americana Donna Leon: nem só de crimes vive a literatura policial.
Nascida em Nova Jersey (1942), professora e escritora, em sua juventude Donna viajou para a Itália, onde estudou nas cidades de Perugia e Siena. Depois de trabalhar como guia turística em Roma, teve vários empregos como professora em escolas na Europa e Ásia. Desde 1981 vive em Veneza.
Senhora de uma escrita cinematográfica, com um fantástico domínio dos diálogos, Donna Leon é, além de tudo, uma mulher cultíssima. Seus livros contêm, além da fórmula policial muito bem aplicada, uma agradabilíssima lição de História e História da arte, tendo em todos eles múltiplas referências à ópera e à literatura. Trazem também um manancial inesgotável de receitas culinárias da cozinha mediterrânea mais sofisticada, e um precioso roteiro do melhor que há em Veneza e não consta de nenhum guia. Donna Leon conhece Veneza como a palma da sua mão, e se compraz em descrevê-la bem, com seus itinerários mais secretos.
Esta familiaridade não é de se admirar: sendo norte-americana, trabalhou muito tempo em Veneza, ensinando literatura inglesa. O protagonista de seus livros não poderia viver em outro local. Guido Brunetti está por volta dos 40 anos, tem dois filhos adolescentes e é casado com uma professora universitária. Os pais dela são riquíssimos, vivem de negócios financeiros algo obscuros e frequentam a alta aristocracia de Veneza e do restante da Itália, enquanto Guido Brunetti veio de classes mais baixas, é formado em direito, recebe um magro salário como policial e não tem muita paciência para as festas dos sogros. No entanto, são essas festas que proporcionam à autora a oportunidade de escrever sobre os fantásticos palácios e locais requintados de Veneza.

Guido e sua esposa se dão muito bem. Ele adora os filhos e tem um desprezo absoluto pela classe política italiana que considera, sem exceção, atolada na mais vil corrupção — uma corrupção que extravasa todos os poderes, inclusive o da polícia.
Morte no Teatro La Fenice foi a estreia no Brasil do charmoso Guido Brunetti, um comissário instintivo, ágil e cordial, funcionário exemplar da polícia de Veneza. Nesse livro, Brunetti investiga o caso do maestro Wellauer, encontrado morto em seu camarim depois de reger o primeiro ato de uma famosa ópera de Verdi.

Em Fardo da Nobreza, os jardins de uma casa abandonada em uma pequena vila na Itália permaneceram intocados por cinquenta anos. Quando o novo proprietário assume a propriedade e dá início a uma reforma, um túmulo macabro vem à tona. Animais, fungos e bactérias fizeram seu terrível trabalho, e o cadáver humano encontra-se em estado avançado de decomposição, o que impede o reconhecimento do corpo. Um anel valioso torna-se a principal pista desse mistério, que leva o comissário Guido Brunetti ao coração da aristocracia veneziana, uma família que ainda sofre com o desaparecimento do filho e cujos segredos perturbadores remontam à Segunda Guerra Mundial.
Enquanto eles dormiam se passa no início da primavera em Veneza. Tomado pelo tédio, o comissário Guido Brunetti já perdia as esperanças de qualquer ação, até que recebe uma estranha visita. Mais uma vez retratando as peripécias desse atípico detetive — amante da boa mesa e da literatura e casado com uma intelectual filha de um conde veneziano — em meio a canais, praças e vielas que ele conhece como ninguém, Donna Leon conduz os leitores aos subterrâneos de uma misteriosa organização religiosa, protegida por figurões da cidade. Brunetti precisará de muita cautela e astúcia para aplacar a influência dos poderosos, inclusive de seu chefe, e proteger uma boa alma.
Se não fosse pelo feriado de Ferragosto, que todos os anos inunda Veneza de turistas, a notícia de um travesti encontrado morto num terreno baldio certamente se tornaria o assunto mais comentado da cidade. Além disso, uma onda de calor faz os moradores se trancarem em suas casas, na segurança dos aparelhos de ar-condicionado, e o crime fica diluído entre os muitos outros escândalos que estampam as capas dos jornais. Para o chefe da polícia de Veneza, trata-se de um caso simples, banal: o michê fora assassinado por um cliente insatisfeito com os serviços prestados.
Em Vestido para morrer, apenas o comissário Guido Brunetti suspeita de algo maior por trás do crime. Quando o corpo é identificado como sendo o de um diretor de banco, Brunetti se vê às voltas com uma conspiração que envolve algumas das figuras mais importantes da cidade, e novos cadáveres não tardam a aparecer.
Num chuvoso domingo de inverno, a arqueóloga americana Brett Lynch recebe uma inesperada visita no apartamento que divide com a namorada — a cantora lírica Flavia Petrelli —, e acaba brutalmente espancada. Em Acqua Alta, o comissário Guido Brunetti, velho conhecido da diva do Scala, assume o caso e, com a ajuda de um pintor e connoisseur, desvenda os códigos internos do mercado de antiguidades e uma complexa rede de negociações espúrias. Por trás de tudo, paira a sombra da Máfia siciliana, que parece influenciar todos os setores da economia italiana. Como veem, nem só de crimes e cadáveres vive a literatura policial!
Até a próxima.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Jaime Bunda, agente secreto

Jaime Bunda, agente secreto

Nas tantas crônicas que escrevi sobre romances policiais, mencionei “a grande virada”. Vou relembrá-la. Desde que foi criada a fórmula policial, críticos literários de peso sempre classificaram os romances policiais como literatura de segunda linha, mas jamais acreditei que existam gêneros de primeira ou segunda linha: acho que existe literatura ótima, excelente, boa, regular ou péssima, dependendo unicamente da habilidade de cada autor, independente do gênero que praticam.

Em relação ao policial, em 1980 ocorreu a grande virada. Umberto Eco, o maior estudioso de Idade Média na Europa, aproveitou a fórmula em seu livro O nome da rosa. Já não se podia afirmar que usá-la era sinônimo de escrever romances de segunda linha.
No novo milênio, Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido como Pepetela, (Benguela, 29 de Outubro de 1941), escritor angolano vencedor do prêmio Camões de 1997, usou a fórmula para escrever sobre os problemas da sociedade angolana.

Toda a obra de Pepetela reflete sobre a história contemporânea de Angola e os problemas que a sociedade angolana enfrenta. Durante a longa guerra, Pepetela, angolano de ascendência portuguesa, lutou juntamente com o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) para libertação da sua terra natal. Seu romance Mayombe retrata as vidas e os pensamentos de um grupo de guerrilheiros durante a guerra; Yaka segue a vida de uma família colonial na cidade de Benguela ao longo de um século; e A Geração da Utopia mostra a desilusão existente em Angola depois da independência. A história angolana antes do período colonial também faz parte das obras de Pepetela, e pode ser lida em A Gloriosa Família e Lueji  — é nestes abismos sociopolíticos do país africano que Pepetela põe a mira de cada um de seus tantos livros publicados em mais de 30 países.
No novo milênio, também ele mergulhou na fórmula. Criou o personagem Jaime Bunda, que arrastando sua avantajada bunda pelas misérias de Luanda continua, com eficiência, a trajetória de seu criador. Jaime Bunda, uma paródia de James Bond, cujo apelido faz óbvia referência à sua anatomia, é um personagem obcecado pelos filmes do agente inglês e romances policiais norte-americanos, aspecto que alguns críticos consideram como ilustrativo de elementos do subdesenvolvimento de Angola — rebaixando a fórmula!!!! Uau!
Jaime Bunda é membro da uma família tradicional angolana que, graças a uma rara capacidade de observação dos detalhes, e por influência do primo, um figurão do governo, consegue o cargo de detetive estagiário — sem muitas atribuições e tendo de aguentar a gozação dos colegas investigadores. Bunda, por fim, recebe a oportunidade de provar que é competente, em seu primeiro caso importante.
No primeiro dos dois romances, Jaime Bunda, Agente Secreto, publicado em 2001, o protagonista investiga um estupro e assassinato de uma adolescente. Jaime parte com entusiasmo para a apuração do crime, ainda sem suspeitos, e, com seus métodos excêntricos, acaba por se envolver em uma trama complexa que reúne escroques internacionais, altos funcionários do governo e uma mulher misteriosa. Na investigação, segue um falsificador sul-africano chamado Karl Botha, uma referência ao ex-primeiro-ministro sul-africano P.W. Botha, quem autorizou a intervenção sul-africana em Angola em 1975.
O segundo romance, Jaime Bunda e a Morte do Americano, publicado em 2003, tem lugar em Benguela em vez de Luanda, e trata da influência norte-americana em Angola. Jaime Bunda investiga o assassinato de um norte-americano e tenta seduzir uma agente do FBI: o romance apresenta a crítica de Pepetela à política exterior dos Estados Unidos, com o comportamento pesado da polícia angolana refletindo a maneira como os norte americanos trataram os suspeitos de terrorismo durante o mesmo período.
Os romances são populares em Portugal, também tendo êxito em outros países europeus, como a Alemanha, onde Pepetela era desconhecido antes de usar a fórmula. Os livros protagonizados por Jaime Bunda são leves, são levíssimos, mas dão o seu recado. Com pitadas de graça e sátira, o escritor passeia pela corrupção, pela anomia, pela miséria cristalizada de uma favela chamada Roque Santeiro, no miolo da capital Luanda.
“Jaime Bunda, Agente Secreto” é, acima de tudo, uma parábola da organização social de Angola. O autor usa seu olhar crítico para denunciar, com bom humor, o ranço colonial que ainda resiste nas instituições angolanas, e assim apresenta um retrato pouco conhecido de seu país, infelizmente, tão parecido com o Brasil.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O Pulitzer e o dry martini

O Pulitzer e o dry martini

No último sábado, lendo a seção “Panorama” da revista Veja, lá naquele cantinho de “o que desce e o que sobe”, me surpreendi ao ver Livros de Ficção em baixa! Uau! O que é isso? A realidade está tão sobrenatural, com tantos descalabros de corrupção, que já ninguém mais lê ficção? Lá estava a notícia: “Pela primeira vez em 35 anos o Prêmio Pulitzer, um dos mais importantes de literatura do mundo, decidiu não contemplar ninguém nessa categoria.”
O Pulitzer é um prêmio americano outorgado a pessoas que realizam trabalhos de excelência, basicamente, nas áreas do jornalismo, literatura e música, administrado pela Universidade de Columbia, em Nova York. Foi criado em 1917 por desejo de Joseph Pulitzer que, na altura de sua morte, deixou uma boa herança para a Universidade. Parte do dinheiro foi usada para começar o curso de jornalismo na universidade em 1912; outra parte continua mantendo o prêmio.
Estaria a prosa americana enfrentando uma crise? — é a pergunta natural que nos ocorre. Foram três os livros escolhidos, entre mais de 300 títulos. Responsável pela escolha final dos vencedores, o Conselho do Pulitzer informou que nenhum dos três atingiu a maioria necessária exigida, ou seja, dez votos entre dezoito.
Os três finalistas eram Train Dreams (Sonhos de Trem ou Sonhos no Trem?), de Denis Johnson, definido pelo comitê avaliador como “um romance sobre um dia de trabalho no velho-oeste americano, com olhar calmo e compassivo sobre suas glórias e terrores”; Swamplandia! (A terra do Pântano?), de Karen Russell, descrito como “um conto de aventura sobre uma excêntrica família, desorientada na condução de um problemático parque temático de briga de jacarés, com narração de uma heroína sábia demais para seus 13 anos de idade”; e The Pale King (O Rei Pálido?), romance póstumo de David Foster Wallace (1962-2008), que explora o tédio e a burocracia no local de trabalho americano.
Lendo estes resumos, fizesse eu parte do conselho e creio que também não iria votar em nenhum deles, mas não acho que a prosa americana esteja em crise. Talvez as histórias chatas estejam! Ninguém tem mais tempo para textos longos e chatos!
Tendo os escritores Denis Johnson, Karen Russell e, a título póstumo, David Foster Wallace como finalistas, o júri não conseguiu chegar a um consenso e o prêmio, não só de 10 mil dólares, mas de um fantástico prestígio, não rolou, este ano, na categoria. Em 1941 e 1974, também havia ficado vago, quando Por quem os Sinos Dobram, de Hemingway (1941) e O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon (1974) eram os favoritos.
Os finalistas deste ano ainda não foram publicados no Brasil, e imagino que as editoras que compraram os livros devem estar chiando! Afinal, o prêmio alavanca tremendamente as vendas…
Além desta notícia, há outra ainda mais extravagante. Em seu próximo filme, James Bond, o agente 007, trocará seu drinque favorito, o famoso Dry Martini (mexido e não batido), pela Cerveja Heineken, tudo em nome do merchandising! O ator da série foi trocado várias vezes, até o escritor já foi trocado, mas agora o drinque… sua marca registrada!
Pois é. Desde que mundo é mundo, quem paga a conta dá o tom. Ou será que Pulitzer está se revirando no túmulo e bebendo uma Heineken? That´s life.
Até a próxima!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Robô-detetive

Robô-detetive

Todos já devem ter ouvido falar em Isaac Asimov. O filme “Eu, robô”, de 2004, foi baseado na sua obra Robot, onde Asimov brinca com as leis da robótica criadas por ele mesmo. Para quem não se lembra, aí vão elas:
1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira e segunda leis.
‘Lei Zero’: Um robô não pode fazer mal à humanidade e nem, por inação, permitir que ela sofra algum mal.
Isaac Asimov nasceu na Rússia em 1920 e foi criado no Brooklyn, Nova York. Além de ter sido um marco na ficção científica, produziu uma grande quantidade de ficção de mistério e suspense. A maioria da sua obra era ficção de mistério voltada para a área científica, e inclui as histórias das séries David “Lucky” Starr e Robot.
Já tivemos uma crônica na KBR que o menciona como precursor das nossas tantas modernidades. Era um cientista de mão cheia e, a exemplo de Júlio Verne, escrevia sobre as possibilidades do futuro, as invencões que estavam por vir — entre elas muitas coisas que usamos na internet e telefones celulares.
Asimov pretendia escrever 500 livros, e por pouco não atingiu essa marca: escreveu 463 obras, mas somando todos os livros, desenhos e coleções editadas, totalizam-se 509 itens em sua bibliografia completa. Dentro dessa obra extensa e fantástica, também ele sucumbiu à fórmula policial: criou o detetive Lije Bailey e seu robô assistente.
Foram dois seus romances policiais:
The Death Dealers (1958), republicado mais tarde como A Whiff of Death e Murder at the ABA (1976), republicado mais tarde como Authorized Murder, nenhum deles publicado no Brasil.
Na sua obra, uma coisa muito interessante foi a publicação de um ensaio que infelizmente não teve tradução para o português: “How Good a Scientist was Sherlock Holmes?” (1980), no qual dá ao mais famoso detetive de todos os tempos os créditos por ele próprio, Asimov, ter usado seus conceitos científicos.
Até a próxima!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Psicose: a morte como espetáculo

Psicose: a morte como espetáculo


Na semana passada falei um pouco sobre Hitchcock. Uma pinceladinha! Existem centenas de livros sobre seu trabalho e não dá para resumir tudo numa crônica, e, aliás, crônicas muito longas desanimam o leitor. Volto a ele para falar de uns pontos que acho importantes.
É muito diferente trabalhar o suspense em imagens do que na escrita. No entanto, para quem escreve ajuda bastante observar cuidadosamente o trabalho de um grande mestre do suspense, e nesse quesito Hitchcock foi realmente o mestre. Também trabalhou muito bem a transferência da culpa, mas esta fica para uma outra investida.
“Psicose” é com certeza seu filme mais conhecido e estudado. Hoje, a violência tomou conta das telas e muitas vezes é feita de forma grosseira, mas quando “Psicose” foi filmado, a célebre sequência do assassinato de Marion (Janet Leigh) mostra um momento especial do cinema de medo e mistério. Depois de vermos a faca, Marion se despede da vida: braço esticado, mão acima do rosto, espalmada, não mais se defendendo dos golpes, mas já escorregando, submergindo na zona escura em que se aloja o seu corpo quase inerte.
Tudo se faz na passagem da luz à sombra. Uma sucessão rápida de fragmentos compõe na mente do espectador todo o horror de uma retaliação que não se mostra em nenhum plano. Ao final da sequência, lá está a vítima, sozinha, no estertor da vida.
Poderíamos dizer que é simplesmente mais um quadro na galeria de mulheres assassinadas no cinema, situação limite em que se pode decidir a reputação de um cineasta. E foi esta cena que fez os estudiosos do cinema afirmarem ser um momento de pura arte inspiração!
Nela, a morte é mostrada como um espetáculo. Por sua intensidade e duração, a morte de Marion é um momento especial. É difícil e desafiadora a reprodução, pela imagem em movimento, do instante sagrado de passagem da vida para a morte, quando esse momento único, de solidão, intransferível, se faz presente na tela.
A exibição da morte, do sexo e do crime faz parte do que os autores dos famosos Cahiers Du Cinema, chamaram de “cinema da crueldade”. A experiência do sexo, morte e violência dirigida ao próprio olho é também um ponto focal de atração das plateias, ansiosas por incursões simuladas em zonas de risco.
A experiência do medo assegurado é constitutiva, e marca a afinidade eletiva do cinema com a violenta ruptura da ordem moral que os espectadores simulam temer, mas desejam, num sistema de projeções que o cineasta incorpora  — coisas que nem Freud explica e que gênios captam — e que consegue arrancar do fundo do inconsciente do espectador cada emoção. E mantê-los atentos até o final.
Caminhar nessa zona de risco, ser um ás na modulação dos sentimentos da plateia diante da exposição do que está implicado no desejo de cada personagem (e de cada espectador), é uma condição ímpar que fez de Hitchcock o mestre que ele foi.
No seu tempo, ao surgirem as novas linguagens no cinema europeu de autor, Hitchcock manteve-se fiel ao cinema de entretenimento, usando o suspense para captar o espectador, usando a fórmula de crime, investigação e solução. Além da cena mencionada, foi mestre no suspense psicológico, apoiado na pura dimensão do olhar, quando o que parece ser uma configuração de rotina, a paisagem, a rua ou a casa de todo dia, de repente se revela uma anomalia, um ponto de incongruência que atiça a percepção e aguça as expectativas, suscita indagação. O insólito dentro do cotidiano faz da cena inocente uma sugestão sinistra, produz insegurança e vontade de decifrar.
Para criar suspense, o escritor usa palavras, o cineasta usa posições de câmera, gestos e olhares de personagens. O objetivo é o mesmo. Captar as emoções e a atenção do espectador/leitor.
Até a próxima!

terça-feira, 3 de abril de 2012

Hitchcock, o mestre do suspense

Hitchcock, o mestre do suspense

Falando mais um pouco sobre as tramas policiais, não podemos deixar de fora o cinema. Roteiristas e diretores aproveitaram, e muito, a fórmula policial para prender seus expectadores na história. Desde que o cinema foi inventado, as tramas policiais, os thrillers, são os filmes de maior bilheteria.
Vou falar um pouco sobre Alfred Hitchcock: gênio do cinema e mestre do suspense. Podemos perfeitamente iniciar assim o perfil do melhor diretor de todos os tempos e responsável por nada mais, nada menos, do que alguns dos melhores filmes da história. Num tempo em que não existia computador, nem efeitos especiais, ele criava cenas de suspense fantásticas, que até hoje são analisadas e copiadas.
Os filmes de Hitchcock trouxeram inovações técnicas nas posições e movimento das câmeras, nas elaboradas edições e nas surpreendentes trilhas sonoras que realçam os efeitos de suspense e terror — o clima de mistério é acentuado pelo uso de música forte e dos efeitos de luz. Nos filmes “hitchcockianos”, a ansiedade do espectador aumenta pouco a pouco, enquanto o personagem não tem consciência do perigo. São apresentados dados ao espectador que o personagem do filme não sabe, criando nele uma tensão para saber o que acontecerá quando o personagem descobrir. Em “Psicose”, somente o espectador vê a porta se entreabrir, esperando algo acontecer enquanto o detetive sobe a escada.
A obra de Alfred Hitchcock é hoje admirada no mundo todo, e os jovens que o descobrem, graças a reprises de, além de “Psicose”, “Janela indiscreta”, “Um corpo que cai, “Rebeca, a mulher inesquecível” etc., passam a  admirá-lo imediatamente.

Cada um de seus trabalhos tem características únicas que, sem dúvida nenhuma, o transformou junto com seu talento no diretor mais famoso que já existiu. Nascido em Leytonstone, Londres, no dia 13 de Agosto de 1899, o inglês teve severa educação dos pais católicos, o que colaborou diretamente para seu interesse pelo crime.
Em 1919, com apenas 20 anos, conseguiu seu primeiro emprego na área cinematográfica, nos estúdios da Players-Lasky, onde fazia interlúdios de títulos nos filmes e aprendeu a escrever roteiros, editar e diversos outros recursos ligados à arte. Seu primeiro filme foi “The Pleasure Garden”, de 1925, apesar de ter substituído o diretor em “Always Tell Your Wife”, em 1922, e escrever roteiros desde 1923.

Em 1926, em seu terceiro filme, “O Inimigo das Loiras” (The Lodger), Hitchcock começou a nos encantar com seu dom de fazer suspense. Fala sobre Jack, um homem que é injustamente acusado de um crime após ser confundido com o estripador homônimo. Nesse mesmo ano, se casou com Alma Reville, e ficou com ela até que a morte os separou. Em 1928 nasceu Patrícia, que fez pontas em alguns filmes do pai (a secretária de “Psicose”, a irmã de “Pacto Sinistro” etc).
Hitchcock dirigiu filmes britânicos até “A Estalagem Maldita” (Jamaica Inn, 1939), quando se mudou para os EUA, contratado por David O. Selznick (produtor de “E o Vento Levou” e “Começou em Nápoles”). Deste contrato saiu um de seus maiores sucessos, “Rebecca: A Mulher Inesquecível” (Rebecca, 1940), a primeira fita do diretor a ganhar o Oscar de melhor filme.
A obra é realmente fantástica: fala de um homem viúvo que se casa com uma jovem, após falecer sua ex-mulher (interpretada por Joan Fontaine, que foi indicada ao Oscar pelo trabalho). Com o desenrolar da história, a menina sofre com a “sombra” da ex-mulher, perfeitamente representada pela empregada da casa, inclusive no visual — Hitchcock a vestiu com longos vestidos, que davam a impressão de fazê-la flutuar, afirmando e representando o fantasma da ex-mulher do dono da casa. Não se tratou apenas de mais um filme com uma bela história: Hitchcock confirma sua genialidade através das técnicas utilizadas, extremamente avançadas e cheias de recursos. A abertura já fala por si só: são longos planos em sequência, efeitos de luz e fumaça para já introduzir o público no clima de medo e suspense.
Ainda neste ano, Hitch produziu o ótimo “Correspondente Estrangeiro” (Foreign Correspondent, 1940), filme que trata de conspirações internacionais descobertas por um simples correspondente estrangeiro curioso. No ano seguinte, Joan novamente foi indicada ao Oscar, porém, desta vez, levando a estatueta para casa por seu trabalho em “Suspeita” (Suspicion, 1941), terceiro filme americano do diretor que começava a se consagrar um mestre em dirigir atrizes.
Diretor sempre muito inovador e criativo, nunca tinha medo de arriscar. “Festim Diabólico” (Rope, 1948), por exemplo, é um filme extremamente complexo e ousado. Em “Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954) criou uma enorme vizinhança nos estúdios da Paramount para ambientar sua trama de um jornalista com a perna fraturada que se envolve com as vidas dos vizinhos, ocupando assim o seu ócio e desconfiando de um assassinato cometido por um deles. James Stewart está impecável, Grace Kelly inesquecível.
No ano seguinte, dirigiu “Ladrão de Casaca” (To Catch a Thief, 1955), muito mais romance do que suspense, mas com uma temática secundária de crimes. É um de seus filmes com o qual o diretor menos simpatiza, talvez pelo fato de ter perdido sua loira Grace Kelly, que durante as filmagens conheceu o marido, o Príncipe Rainier de Mônaco e abandonou o cinema.
Em 1955, ganhou o seu próprio programa de televisão (“Alfred Hitchcock Presents…”), o que aumentou muito a sua popularidade e o transformou em um homem rico. O programa, que trazia diversos episódios com histórias de crimes e mistérios, durou até 1961.
“Um Corpo que Cai” (Vertigo, 1958) é considerado por muitos a obra máxima de Hitchcock. James Stewart encarna um detetive, prestes a se aposentar por um trauma do passado, que é contratado por um amigo para seguir sua mulher; desconfia que ela pode estar sendo possuída por um espírito, e acaba se apaixonando por ela. Depois que ela morre, tem que enfrentar todo o drama psicológico de acreditar que está sendo perseguido pela alma dela. O filme é um marco, fantástico em sua evolução, e serve de exemplo para as injustiças que a Academia comete: no Oscar de 1959, só foi indicado nas categorias de melhor som e direção de arte, e pelo menos levou a segunda estatueta para casa.
No seu clássico absoluto, a obra-prima “Psicose” (Psycho, 1960), Hitchcock quebrou todas as barreiras imagináveis do cinema. Além de rodá-lo propositalmente com um baixo orçamento, mostrou pela primeira vez na história do cinema um vaso sanitário (até então proibido pela censura); filmou todo em preto e branco (ignorando a tecnologia das cores para não criar um contraste com o sangue), escondeu uma forte sexualidade (a cena em que Norman vai atender o balcão e diz que estava comendo, quando na verdade estava transando com a protagonista), enfim, quebrou todas as barreiras possíveis e de tudo o que já havia criado antes. Isso, claro,  sem falar na maravilhosa história com uma surpreendente (e quase única) troca de protagonistas no meio da produção, executada perfeitamente. A cena do chuveiro é uma das mais clássicas já vistas, com o gênio utilizando calda de chocolate para representar todo o sangue visto em tela.
O diretor ainda usou e abusou de recursos especiais em seus voadores de “Os Pássaros” (The Birds, 1963) para perseguir sua protagonista. Encerrou sua carreira com “Trama Macabra” (Family Plot, 1976).
Com todos esses sustos e cinismo ao seu redor, é até irônico pensar que, na verdade, Hitchcock era um homem caseiro, amante de sua família e um ótimo gourmet. Falar sobre ele numa crônica é muito pouco. Com certeza falarei mais de uma vez sobre suas técnicas para criar suspense.
Até a próxima.