Fiquei muito feliz em assinar o contrato com a Estremoz Editora e vamos publicar o livro Paisagens Noturnas em Portugal e no Brasil. Esta será mais uma etapa para o nosso detetive Alyrio Cobra. Espero que as aventuras de Alyrio possam ser apreciadas por muitas pessoas, em várias partes do mundo. Para mais informações visite: www.estremozeditora.comsábado, 8 de setembro de 2018
Amigos, estou muito contente, eu e o detetive Alyrio estamos rumo à Portugal
Fiquei muito feliz em assinar o contrato com a Estremoz Editora e vamos publicar o livro Paisagens Noturnas em Portugal e no Brasil. Esta será mais uma etapa para o nosso detetive Alyrio Cobra. Espero que as aventuras de Alyrio possam ser apreciadas por muitas pessoas, em várias partes do mundo. Para mais informações visite: www.estremozeditora.comquarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
Amigos, estou me sentindo honradíssima. Tito Prates, o melhor biógrafo de Agatha Christie, resenhou Paisagens Noturnas!
Aqui vou repassar a resenha que ele escreveu do livro Paisagens Noturnas. Mais uma aventura do detetive Alyrio Cobra. Realmente estou honradíssima.
JK Rowling perdeu feio...
"Certa noite em meados do século XIX, um grupo de estudantes pertencentes a sociedade Epicureia, vagueava pelo Cemitério da Consolação, pisando em sepulturas e declamando versos de Byron. Foi quando tiveram a ideia de pegar uma mundana, envolveram-na em aparatos da maçonaria, colocaram-na em um esquife e retornaram ao cemitério. Lá, no meio da terra recém cavada, do pio das corujas e talvez até sob a luz de uma lua cheia, todos eles se lançaram sobre a moça e a estupraram e possuíram até a morte. , segundo a crônica da época, continuaram a possuí-la mesmo morta e gritavam: Osculei um cadáver!"
Essa crônica de um crime real de S Paulo dos tempos passados inspirou Vera Carvalho a criar esse interessante e incrível thriller de mistério, suspense e investigação noir.
Datado de 2003, tem todos os traços do detetive Cormoran Strike, criado por Robert Galbraith, nada menos que o pseudônimo para romance policial de JK Rowling.
Os fãs desses livros da escritora britânica se surpreenderão com a qualidade, a amibentação e o macabro e sinistro ambiente do livro de Vera Carvalho, uma obra prima no gênero para a literatura nacional.
Se Vera se inspirou em JK? Não. JK criou o personagem dez anos depois de Vera, e o ambientou nas histórias, ruas e paisagens de Londres, como Vera fez com Alyrio Cobra em São Paulo do século XXI.
Curioso lembrar que JK Lê, fala e escreve português perfeitamente. Será? De qualquer forma, se for, a criatura não superou a criadora e Vera Carvalho nos brinda com um super livro. Vale muito a pena ser lido, um dos melhores nacionais policial que já li.
domingo, 22 de setembro de 2013
Paisagens Noturnas 22/09/2013
Paisagens Noturnas
22/09/2013
Paisagens Noturnas, clássico do crime, é reeditado pela KBR.
Em 28 de junho de 2005, pouco depois de Paisagens Noturnas ter sido lançado pela editora Landscape, Luis Eduardo da Matta, escritor e colunista do Digestivo Cultural,[1] escreveu sobre o livro, que, aliás, é excelente, e acaba de sair em edição revisada pela KBR. Conheci Vera Carvalho Assumpção no final de 2003, quando ela preparava-se para lançar seu primeiro romance policial, o instigante e surpreendente Paisagens Noturnas (2ª ed KBR, 2013). Interessei-me pelo livro de pronto, não apenas por ser um grande leitor de ficção policial e de suspense, como principalmente por enxergar na sua chegada às livrarias, um reforço nas fileiras da ainda escassa lLiteratura brasileira de entretenimento, a dita LPB, um tema recorrente nos meus artigos e de cuja defesa não abro mão. Muita gente, certamente, não se deu conta disso, mas o fato é que Paisagens Noturnas inaugurou uma linguagem nova dentro da literatura policial nacional, ao abordar questões caras à atualidade (mundo das drogas, deterioração das relações familiares, violência nas grandes cidades brasileiras, no caso, São Paulo), sem, contudo, resvalar para a estética marginal e, por vezes, árida e repulsiva que tem marcado a prosa de muitos ficcionistas devotados à temática do submundo urbano e do crime. Vera brinda os seus leitores com um estilo refinado; limpo, porém não asséptico e, por isso mesmo, não-limitado. Ou seja: a sua linguagem elegante não impede, absolutamente, que sejam postos em relevo todos os matizes da nossa múltipla e ensandecida sociedade, das angústias humanas cada vez mais pungentes, dos inevitáveis conflitos pessoais numa atualidade ferreamente competitiva e individualista, enfim: todos os ângulos da realidade, muitos dos quais preferimos ignorar diariamente em nome de um ideal de felicidade, beleza e segurança. Vera Carvalho Assumpção acertou em cheio ao abraçar a literatura policial, tornando-se, talvez sem saber, a única escritora-mulher em atividade no gênero no Brasil, a nossa “dama do crime”. Com isso, ela criou um dos mais simpáticos personagens surgidos na ficção nacional nos últimos tempos: o detetive Alyrio Cobra, protagonista de Paisagens Noturnas, um legítimo flâneur paulistano, amante da boa conversa e do bom vinho, além de um espectador atento da vida e da paisagem da sua amada São Paulo. Alyrio está, também, presente em Peças Fragilizadas e O Rigor da Forma,[2] duas ótimas tramas policiais — que tive o privilégio de ler ainda nos originais —, também publicados pela KBR. Percebe-se na narrativa de Vera Carvalho Assumpção um somatório de influências, que vão de Patrícia Highsmith a Ruth Rendell, passando por Simenon e Dashiell Hammett. Seu protagonista, no entanto, guarda inegáveis semelhanças com Pepe Carvalho, o célebre dublê de detetive e gourmet criado pelo catalão Manuel Vázquez Montalbán, estrela de livros como Os Mares do Sul e Assassinato no Comitê Central. Dada a maneira como ela conduz a narrativa, mantendo um clima de suspense constante e construindo com maestria suas galerias de personagens, podemos afirmar, sem exagero, que Vera Carvalho Assumpção é uma voz inovadora e necessária na nova literatura brasileira de mistério. Escritora incansável e grande empreendedora, ao longo desses mais de vinte anos, Vera foi agraciada com diversos prêmios obtidos em concursos literários, aqui e no exterior, como o da Universidade de Évora, em Portugal, o Gralha Azul — patrocinado pelo extinto Banestado do Paraná —, e um honroso segundo lugar no Guimarães Rosa, da Radio France Internationale, o que não é pouco. Por tudo o que conheço de Vera, por toda a sua cultura, criatividade, determinação e dinamismo, não creio ser demasiado afirmar que ela é uma escritora que exerce a sua vocação por inteiro, entregando-se plenamente a todas as vertentes da criação literária e auferindo indiscutíveis vitórias, ainda que estas não tenham sido — ainda — devidamente contabilizadas pela mídia e pelo imaginário coletivo. Afinal é de bons contadores de histórias, desvinculados da volúpia dos hermetismos intelectuais e distantes dos devaneios experimentais, que estamos necessitados, acima de tudo.
[1] Reproduzido com a gentil autorização do autor e do Digestivo. [2] Rigor da Forma sai pela KBR em outubro, completando a série de 5 romances de Alyrio Cobra publicados até o momento.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Jogo de Poder
Jogo de Poder
09/09/2013
A ideia principal do filme argentino “Tese Sobre um Homicídio” é colocar mestre experiente e aluno talentoso se antagonizando em um intrincado jogo psicológico. A crítica não lhe deu as merecidas estrelas.
Acho que somos rivais da Argentina no futebol, mas é preciso reconhecer a qualidade deste thriller psicológico. A famosa fórmula do romance policial está nele: crime, investigação e solução. No entanto, a investigação vai um pouco além de se descobrir quem matou, transforma-se num jogo de poder.
Roberto Bermudez (Ricardo Darín) é um especialista em Direito Criminal que ministra um curso bastante reconhecido em Buenos Aires. Uma nova turma está iniciando as aulas, e entre os alunos está Gonzalo (Alberto Ammann), filho de um velho conhecido do professor.
De personalidade um tanto arrogante, Gonzalo parece não somente interessado nos ensinamentos do mestre. Enquanto Roberto, um solteirão convicto, leva uma vida de encontros furtivos com mulheres mais novas, Gonzalo discute em profundidade todas as questões propostas pelo mestre, especialmente seu fascínio pelos detalhes na aplicação da lei.
Durante uma das aulas, o corpo de uma moça é encontrado no estacionamento da faculdade, aparentemente colocado de forma que Roberto e seus alunos pudessem avistá-lo de sua janela. Pelo fato do crime ter acontecido praticamente na sua frente, Roberto se interessa pela investigação. Ao se aproximar do corpo, vê detalhes importantes e fica sabendo que ela era garçonete de um restaurante que costumava frequentar. Seu interesse aumenta, e ele passa a crer que Gonzalo seja o autor do crime. Acredita que o aluno esteja desafiando seus talentos investigativos numa espécie de exibicionismo perverso
Num diálogo muito bem construído, Gonzalo explica ao professor que, embora o tenha visto pela última vez no seu aniversário de nove anos, por toda vida desenvolveu uma grande admiração por seu trabalho. Seus pais jamais deixaram de falar sobre o brilho da sua carreira, o que lhe despertou o desejo de seguir-lhe os passos. Em seguida, diz que seu pai, quando ele tinha 15 anos, fez um teste de DNA para saber se era mesmo seu pai biológico, mas nunca foi buscar o resultado.
Naquela noite, em casa, Roberto revê velhos slides que não deixam dúvidas sobre seu relacionamento com a mãe de Gonzalo. A partir daí, não se tem certeza se a luta é entre o mestre e o aluno ou se Gonzalo passou a vida ouvindo a mãe elogiar Roberto e decide confrontá-lo, agir de forma a mostrar-se superior ao suposto pai biológico.
Habilmente, o roteiro explora também uma espécie de desafio entre o professor maduro e o aluno jovem, numa rivalidade masculina e sexual, envolvendo a conquista de Laura, irmã da moça brutalmente assassinada. Além disso, Roberto suspeita que Laura possa ser a próxima vítima de Gonzalo.
Os dois, tanto Roberto como Gonzalo, se transformam em personagens obstinados, embrenhando-se um na vida do outro, seguindo, investigando.
Para a polícia e os verdadeiros investigadores do caso, tudo o que acontece parece não passar de um grande equívoco do experiente criminologista Roberto, obcecado por detalhes e pela ideia de que Gonzalo é o assassino. As provas vão se esfarelando. Os desafios aumentam.
Não vou contar o final do filme. No enredo há um crime a ser esclarecido, e é sobre esse fundo de investigação que os dois homens se enfrentam. Havendo o crime, existe um culpado, e descobri-lo é o que move toda a trama.
A grande vantagem dessa trama é que, quando o filme termina, certas questões permanecem na cabeça do espectador por algum tempo. Isso é bom, e revela uma obra não apenas limitada ao tempo de sua exibição. De forma eficaz, o diretor faz a peleja dos personagens evadir a tela e tocar o público.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Leite e uísque
Leite e uísque
05/09/2013
No mês de setembro (entre os dias 19 e 22), acontecerá em São Paulo, a PAULICEIA LITERÁRIA, onde se pretende homenagear autores paulistas. As mesas, ao estilo da Flip, ocorrerão na Associação dos Advogados de São Paulo. Vou participar de algumas delas e darei notícia. Por conta disto, vou falar do escritor paulista Luiz Lopes Coelho. E falo por dois motivos: ele era advogado e escritor de livros policiais.
Numa das primeiras crônicas que escrevi sobre o gênero policial mencionei o livro O Mistério, publicado em capítulos no jornal A Folha a partir de 20 de março de 1920, e logo depois editado em livro pela Companhia Editora Nacional. O Mistério foi o primeiro livro policial de que se tem notícia no Brasil e ditou por muito tempo o tom de sátira aos nossos escritores. Em O Mistério, não só o detetive protagonista e a polícia como instituição são alvos do cômico, mas a própria narrativa é ironizada em vários aspectos. No entanto, também tivemos uma linha mais séria. O elo que ligou o gênero policial praticado pelos clássicos europeus e americanos ao Brasil foi sem sombra de dúvidas Luiz Lopes Coelho.
O difícil de escrever sobre ele é que começamos a reler os contos e… entramos numa deliciosa realidade de São Paulo nos anos 60 e esquecemos da crônica. Mas, vamos lá!
Ele publicou três livros de contos: A Morte No Envelope (1957), O Homem Que Matava Quadros (1961) e A Ideia De Matar Belina (1968). Este último foi reeditado em 2004 pela Editora DBA na coleção ruído, dedicada a autores já mortos que deixaram uma obra ruidosa, perturbadora e provocativa. Pesquisando sobre ele na internet, encontrei mais um livro: Ninguém Morre Duas Vezes publicado na Coleção De Mão Em Mão (2012) onde estão reunidos alguns dos seus melhores contos, quase todos protagonizados pelo delegado Leite. É um livro gratuito e pode ser baixado no formato pdf.
Apesar da obra ruidosa, existem poucas referências sobre a pessoa de Luis Lopes Coelho. Sabe-se que colecionou títulos. Foi diretor da Fundação Cinemateca Brasileira, diretor presidente da Associação dos Amigos do Museu de Arte Moderna, membro do Conselho Consultivo da Fundação Bienal de São Paulo, conselheiro da Associação dos Advogados de São Paulo e secretário do partido Socialista Brasileiro. Foi frequentador assíduo do Clubinho, no centro paulistano e gostava mesmo era de uma boa história junto à boemia artística da época, regada a muito uísque.
Começou a escrever com mais de 50 anos e criou o detetive Leite, que bebia muito uísque, resolvia seus casos deitado na rede do seu apartamento em São Paulo, tendo sempre ao lado (a exemplo do comissário Maigret de Simenon) uma esposa simpática e dedicada. Luis Lopes Coelho descreve como ninguém a sociedade paulista, simples e ingênua, dos anos 60. É delicioso acompanhar suas descrições da sociedade paulistana que frequentava o Jockey Clube, confeitarias, boates e outros locais da moda. Seus contos não tem a violência dos dias de hoje. São comparáveis aos contos clássicos de sua época.
Millôr Fernandes, que foi seu amigo, escreveu que em 1972, quando teve de assumir O Pasquim, em vias de fechar, ligou para Luiz Lopes Coelho. O amigo encarou o desafio e foi um dos salvadores de O Pasquim.
Foi em 1973, numa entrevista para O Pasquim que Luiz Lopes Coelho revelou um pouco de seus segredos. Vivia num apartamento na Avenida São Luis. Seu detetive Leite, segundo ele, era baseado em seu amigo delegado João Leite Sobrinho, que atuava na Homicídios em São Paulo. Bonachões, tanto o personagem como o delegado eram dotados de qualidades humanas.
Apesar de toda experiência, Luis Lopes Coelho garante que João Leite nunca o ajudou com informações profissionais no momento de inspiração. Só lhe narrava alguns casos estranhos que eram o estopim de ideias para os contos. Ele conta que “uma dentista de voz estridente, membro do partido socialista, foi encontrada morta por asfixia esparadrapal.” “Troquei um pouco para não copiar completamente. A realidade é tão chata que a gente não deve copiá-la. Então asfixiei-a com discos”.
Suas influências são os clássicos: Rex Stout, Agatha Christie, George Simenon e Edgard Allan Poe. Nesta entrevista, ele afirmou que Allan Poe criou o primeiro detetive do mundo “entre um porre e outro! Entre um porre e outro, fazer o que fez….É bom beber, ne?”
No meio das piadas que cercavam o espírito de O Pasquim, ele dava sua receita de crimes, revelando que seu modo de matar “é de um andaime ao contrário. Primeiro você acha o fim, o original curioso, da morte nova, da forma de morte nova. Depois você descobre um jeito de matar novo. Porque o que é interessante é o mistério até o final”.
Por falar em mistério, disso ele entendia muito bem. Seus contos mostram a seriedade com que via seu trabalho, criando e mantendo suspense até o final. Além disto, trabalhava muito bem os elementos que formam a essência do gênero policial. Também cuidou muito bem do aspecto psicológico dos envolvidos e as nuances da convivência humana, lançando um olhar compreensivo sobre os costumes da época.
Na sua entrevista ao Pasquim, ele diz que gostaria de ter sido “coqueteleiro”. “Se porventura o socialismo viesse a dominar o país, perderia minha qualidade de advogado. Assim cuidei de estudar o negócio dos coquetéis porque em qualquer regime há um bar.” E de receita em receita forneceu a que havia criado com o pintor Cláudio Graciliano: “Três golejos de gim, duas pingadas de peppermint, mais um pouco de gim; mais uma golejada de vermute italiano. Bata com gelo. Sirva com coragem!”
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Rigor da Forma
Rigor da Forma
16/08/2013
Inconformada com o envenenamento da filha por um medicamento defeituoso, Maria Lya contrata Alyrio Cobra. Que motivos teria o detetive para aceitar aquele caso e investigar uma morte semelhante a tantas que vinham ocorrendo no país pelo medicamento defeituoso?
Pouco a pouco, entretanto, ele vai se enredando numa trama que envolve conflitos psicológicos e a poesia de Francisca Júlia. À medida que envereda pelo caso, o que de início se apresentava como o delírio da mãe cheia de culpas acabará assumindo feições intrigantes, num mundo em que as rimas perfeitas da poeta ditam as regras.
Leia aqui um trecho do livro.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Peças Fragilizadas
Peças Fragilizadas
07/08/2013
Alyrio saiu de um hotel de luxo próximo à Avenida Paulista. O lusco-fusco do anoitecer envolvia a cidade. Entre altos edifícios não se sabia para que lado findava o dia nem de que lado vinha a noite.
Contratado por um assassino de aluguel e traficante, Alyrio Cobra sentia um estranho mal-estar, que aumentava no meio de tanta gente e tanta poluição. Abraçou a frasqueira velha recheada de grana. Mesmo tendo de enfrentar políticos poderosos e criminosos não menos poderosos, a grana e a adrenalina o animavam a enfrentar o desafio. No entanto, à medida que a investigação se aprofunda, ele se vê envolvido numa trama de poderosos e assassinos em potencial que acaba assumindo feições brutais, num desafio à inteligência e à integridade física do detetive.
Leia aqui um trecho do livro.
Mandalas Translúcidos
Mandalas Translúcidos
07/08/2013
Era madrugada quando Alyrio Cobra recebeu o telefonema de seu melhor amigo. George estava em Portugal, num festival de gastronomia e acabara de encontrar seu companheiro de viagem esfaqueado. O que teria ocorrido no famoso Festival de Gastronomia de Santarém para que um dos participantes fosse esfaqueado?
Pela primeira vez trabalhando fora da sua cidade, Alyrio vai se enredando numa trama de tráfico de mulheres e prostituição. O local onde George pretendia degustar boas comidas e vinhos especiais acaba mostrando um mundo paralelo repleto de intrigas e jogos de poder.
Leia aqui um trecho do livro.
Serpente Tatuada
Serpente Tatuada
07/08/2013
Depois de seguir Grace, colhendo provas de adultério, Alyrio Cobra se surpreende ao vê-la morta com um tiro na cabeça. Postado ao lado do carro em que ela foi assassinada, esperando pela polícia, percebe a estupefação que o voo rasante de uma ave causa nos curiosos. Naquele instante Alyrio Cobra decide que, sendo pago ou não, vai descobrir quem atirou em Grace.
Numa sociedade podre, personagens vão se revelando. São muitas as peripécias e outras mortes são inevitáveis. Conseguirá Alyrio encontrar o verdadeiro assassino entre tantas pessoas que tinham motivos para matar aquela mulher? Conseguirá ele evitar mais mortes?
Leia aqui um trecho do livro.
Paisagens Noturnas 07/08/2013
Paisagens Noturnas
07/08/2013
Um rico executivo tem a irmã assassinada próximo à escola de periferia em que lecionava. Dois alunos confessaram o crime e o motivo: a professora os perseguia e impedia a atividade de venda de drogas nas salas de aula. Existiam assassinos confessos e um bom motivo.
No entanto, algumas dúvidas pairam na mente do irmão da vítima que contrata o detetive Alyrio Cobra. Num crime aparentemente solucionado, Alyrio Cobra se embrenha num mundo onde uma série de quadros que retratam paisagens escurecidas pela noite e assombradas pela lua guia seus passos. O que a princípio parecia um caso resolvido vai se mostrar um desafio para o detetive.
Leia aqui um trecho do livro.
Caldeirão de Raças
Caldeirão de Raças
07/08/2013
O avô de Denis, Eduardo, e seus amigos fazem parte de uma sociedade filosófica secreta que, em reuniões semanais, discute temas profundos ligados à história da civilização brasileira. Denis tem um grande respeito pelos membros dessa sociedade e muita curiosidade sobre os assuntos discutidos, mas só terá permissão para fazer parte dela quando tiver 15 anos. No entanto, tudo muda quando seu avô desaparece sem deixar pistas. Sequestrado! O resgate terá de ser pago pela própria…
Viagem Virtual
Viagem Virtual
07/08/2013
Camila acessa no computador as antigas fotos de família, sem saber que aquelas imagens na tela seriam o cenário para um agradável reencontro com sua querida avó. Juntas, elas fazem uma viagem por um pequeno povoado sem luz elétrica, num tempo em que carroças e galinhas se misturavam nas tranquilas ruas do centro… da cidade de São Paulo!
Na Caravela Virtual
Na Caravela Virtual
07/08/2013
Em “Na Caravela Virtual”, o protagonista Pedro precisa fazer um trabalho escolar e decide narrar a história de Manoel Dias, seu antepassado, cujas peripécias tia Cloé lhe contava desde criança. É uma ficção baseada em fatos históricos, que desperta a curiosidade do leitor para temas do passado, levando-o a compreender melhor o presente.
domingo, 20 de maio de 2012
Noir malandro
Noir malandro
22/05/2012
Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato, foi um escritor de fôlego. São Paulo foi a capital inspiradora desse escritor de múltiplas mídias e gerações: são mais de cinquenta livros, entre romances, contos, novelas e ensaios. Escreveu crônicas e contos, se destacou escrevendo romances para o público juvenil e escreveu também várias obras literárias para adultos. Durante os anos 1970 foi roteirista de diversos filmes do gênero pornochanchada, produzidos na Boca do Lixo, em São Paulo, como “As Cangaceiras Eróticas” e “O Inseto do Amor”.
Sempre gostei das histórias de Marcos Rey. Meu personagem Alyrio Cobra, como ele, é um paulistano que transita no cenário da cidade de São Paulo. O escritor faleceu no dia 1º de abril de 1999, aos 74 anos. Foi cremado e, um mês depois, sua esposa sobrevoou o centro da cidade com um helicóptero, espalhando as cinzas sobre São Paulo e realizando assim a reunião eterna de Marcos Rey com a metrópole que foi a grande personagem de toda a sua obra.
Nos tempos em que a Livraria Cultura do Conjunto Nacional era um local de encontro de escritores, todos os sábados, lá pelas 11 da manhã, Marcos Rey batia ponto por lá. Havia um grupo muito grande que frequentava o local do qual ele fazia parte, sempre animado, contando detalhes de suas aventuras literárias.
Rey usou a fórmula policial, e se poderia dizer que foi o precursor de Jô Soares, com seu policial cheio de ironia. Beirando o cronista, mas não o sendo, consegue em seus livros retratar o cotidiano paulistano de meados do século passado; na verdade, usa e abusa do humor, tornando a leitura de sua obra ainda mais interessante. Seus protagonistas são figuras típicas da cidade e vale a pena um olhar sobre eles.
Em sua larga obra, Malditos Paulistas é um ótimo exemplo, um romance que mistura a veia policial e o picaresco. A narrativa está centrada na trajetória singular de Raul, um carioca na faixa dos trinta anos que já fez muita coisa na vida, mas em nenhuma de suas atividades logrou sucesso. Desiludido, decide tentar a sorte em São Paulo, onde amplia suas experiências profissionais: trabalha como instrutor de natação, figurante de novela, garçom de cantina no Bixiga. Um anúncio classificado “Precisa-se de motorista” muda sua sorte na capital paulista. Ele vai trabalhar de motorista particular para Duílio Paleardi, que mora numa mansão do Morumbi. Ali, Raul se ocupa de flertes fortuitos com as empregadas e com a patroa, até que encontra, na garagem da mansão, uma marionete vestida de Carmem Miranda. A descoberta promove uma virada nos rumos da história, transformando-a numa narrativa vertiginosa em torno das investigações de Raul sobre os negócios escusos de Paleardi.
Num “noir” tipicamente brasileiro, Raul é o protótipo do pequeno malandro. Depois que lemos no primeiro parágrafo do livro o anúncio do emprego em que “dispensam-se referências”, a primeira dica sobre a personalidade de Raul aparece logo no segundo, quando ele pensa: “O emprego é para mim”.
A alusão deixada em aberto nessa primeira passagem é preenchida a seguir, quando Raul nos conta resumidamente seu currículo profissional: salva-vidas, cabo eleitoral, motorista, garçom, extra de telenovela, instrutor de natação, não sem antes avisar que não é motorista por vocação: “Meu sonho brasileiro, acalentado em mil camas e tipos de colchões, era ter um belo emprego público, que atrelasse meu pequeno destino ao glorioso futuro da Nação, mas à falta de um curso ginasial completo, cartuchos e pistolões, meu nome nunca foi impresso no Diário Oficial.”
A afirmação do “sonho brasileiro” de um “belo emprego público…” é intercalada pelo aposto de que esse sonho era “acalentado em mil camas e tipos de colchões”, o que insere o caráter errante da personagem e seu aspecto de volubilidade sexual — muitas mulheres, apartamentos no Guarujá e bares ao redor do porto, tudo isso envolve o personagem, que não cessa sua busca por respostas e por justiça (pessoal, claro).
No decorrer da história, o protagonista vai nos oferecendo outras características, sempre mobilizando algum recurso cômico. Por várias vezes Raul tem relações sexuais de maneira utilitária, ou seja, para conseguir vantagens; também ensaia alguns passos como chantagista, mas percebe-se que não é um contraventor real — só quer ver se “descola algum”. Mesmo ao chantagear contrabandistas Raul não deseja mexer com armas, ou seja, até em atividades “não louváveis” ele não quer se arriscar muito, É o malandro típico, que mesmo na contravenção só quer aquilo que não seja perigoso — atividades que não requerem o uso da violência, mas somente daquilo que Raul sabe que tem: “cabeça, picardia, manha e cancha”.
Claro que ele gostaria muito mais de ver seu nome no Diário Oficial numa nomeação, com um belo salário, ou seja, numa boa “mamata”. Usando a fórmula policial e criando um fantástico suspense, Marcos Rey nos mostra a alma do pequeno malandro que, em não descolando uma “mamata” do Estado, se deixa envolver pelo mundo das mansões do Morumbi onde as pessoas não são tão corretas assim, e de apartamentos no Guarujá, reduto dos ricos em meados do século passado.
Até a próxima!
terça-feira, 15 de maio de 2012
Nem só de crimes vive a literatura policial
Nem só de crimes vive a literatura policial
15/05/2012
Quem gosta de História e História da Arte, especialmente a italiana, e mais especificamente a de Veneza, não pode deixar de conhecer o investigador Guido Brunetti, criado pela norte-americana Donna Leon: nem só de crimes vive a literatura policial.
Nascida em Nova Jersey (1942), professora e escritora, em sua juventude Donna viajou para a Itália, onde estudou nas cidades de Perugia e Siena. Depois de trabalhar como guia turística em Roma, teve vários empregos como professora em escolas na Europa e Ásia. Desde 1981 vive em Veneza.
Senhora de uma escrita cinematográfica, com um fantástico domínio dos diálogos, Donna Leon é, além de tudo, uma mulher cultíssima. Seus livros contêm, além da fórmula policial muito bem aplicada, uma agradabilíssima lição de História e História da arte, tendo em todos eles múltiplas referências à ópera e à literatura. Trazem também um manancial inesgotável de receitas culinárias da cozinha mediterrânea mais sofisticada, e um precioso roteiro do melhor que há em Veneza e não consta de nenhum guia. Donna Leon conhece Veneza como a palma da sua mão, e se compraz em descrevê-la bem, com seus itinerários mais secretos.
Esta familiaridade não é de se admirar: sendo norte-americana, trabalhou muito tempo em Veneza, ensinando literatura inglesa. O protagonista de seus livros não poderia viver em outro local. Guido Brunetti está por volta dos 40 anos, tem dois filhos adolescentes e é casado com uma professora universitária. Os pais dela são riquíssimos, vivem de negócios financeiros algo obscuros e frequentam a alta aristocracia de Veneza e do restante da Itália, enquanto Guido Brunetti veio de classes mais baixas, é formado em direito, recebe um magro salário como policial e não tem muita paciência para as festas dos sogros. No entanto, são essas festas que proporcionam à autora a oportunidade de escrever sobre os fantásticos palácios e locais requintados de Veneza.
Guido e sua esposa se dão muito bem. Ele adora os filhos e tem um desprezo absoluto pela classe política italiana que considera, sem exceção, atolada na mais vil corrupção — uma corrupção que extravasa todos os poderes, inclusive o da polícia.
Morte no Teatro La Fenice foi a estreia no Brasil do charmoso Guido Brunetti, um comissário instintivo, ágil e cordial, funcionário exemplar da polícia de Veneza. Nesse livro, Brunetti investiga o caso do maestro Wellauer, encontrado morto em seu camarim depois de reger o primeiro ato de uma famosa ópera de Verdi.
Em Fardo da Nobreza, os jardins de uma casa abandonada em uma pequena vila na Itália permaneceram intocados por cinquenta anos. Quando o novo proprietário assume a propriedade e dá início a uma reforma, um túmulo macabro vem à tona. Animais, fungos e bactérias fizeram seu terrível trabalho, e o cadáver humano encontra-se em estado avançado de decomposição, o que impede o reconhecimento do corpo. Um anel valioso torna-se a principal pista desse mistério, que leva o comissário Guido Brunetti ao coração da aristocracia veneziana, uma família que ainda sofre com o desaparecimento do filho e cujos segredos perturbadores remontam à Segunda Guerra Mundial.
Enquanto eles dormiam se passa no início da primavera em Veneza. Tomado pelo tédio, o comissário Guido Brunetti já perdia as esperanças de qualquer ação, até que recebe uma estranha visita. Mais uma vez retratando as peripécias desse atípico detetive — amante da boa mesa e da literatura e casado com uma intelectual filha de um conde veneziano — em meio a canais, praças e vielas que ele conhece como ninguém, Donna Leon conduz os leitores aos subterrâneos de uma misteriosa organização religiosa, protegida por figurões da cidade. Brunetti precisará de muita cautela e astúcia para aplacar a influência dos poderosos, inclusive de seu chefe, e proteger uma boa alma.
Se não fosse pelo feriado de Ferragosto, que todos os anos inunda Veneza de turistas, a notícia de um travesti encontrado morto num terreno baldio certamente se tornaria o assunto mais comentado da cidade. Além disso, uma onda de calor faz os moradores se trancarem em suas casas, na segurança dos aparelhos de ar-condicionado, e o crime fica diluído entre os muitos outros escândalos que estampam as capas dos jornais. Para o chefe da polícia de Veneza, trata-se de um caso simples, banal: o michê fora assassinado por um cliente insatisfeito com os serviços prestados.
Em Vestido para morrer, apenas o comissário Guido Brunetti suspeita de algo maior por trás do crime. Quando o corpo é identificado como sendo o de um diretor de banco, Brunetti se vê às voltas com uma conspiração que envolve algumas das figuras mais importantes da cidade, e novos cadáveres não tardam a aparecer.
Num chuvoso domingo de inverno, a arqueóloga americana Brett Lynch recebe uma inesperada visita no apartamento que divide com a namorada — a cantora lírica Flavia Petrelli —, e acaba brutalmente espancada. Em Acqua Alta, o comissário Guido Brunetti, velho conhecido da diva do Scala, assume o caso e, com a ajuda de um pintor e connoisseur, desvenda os códigos internos do mercado de antiguidades e uma complexa rede de negociações espúrias. Por trás de tudo, paira a sombra da Máfia siciliana, que parece influenciar todos os setores da economia italiana. Como veem, nem só de crimes e cadáveres vive a literatura policial!
Até a próxima.
terça-feira, 8 de maio de 2012
Jaime Bunda, agente secreto
Jaime Bunda, agente secreto
08/05/2012
Nas tantas crônicas que escrevi sobre romances policiais, mencionei “a grande virada”. Vou relembrá-la. Desde que foi criada a fórmula policial, críticos literários de peso sempre classificaram os romances policiais como literatura de segunda linha, mas jamais acreditei que existam gêneros de primeira ou segunda linha: acho que existe literatura ótima, excelente, boa, regular ou péssima, dependendo unicamente da habilidade de cada autor, independente do gênero que praticam.
Em relação ao policial, em 1980 ocorreu a grande virada. Umberto Eco, o maior estudioso de Idade Média na Europa, aproveitou a fórmula em seu livro O nome da rosa. Já não se podia afirmar que usá-la era sinônimo de escrever romances de segunda linha.
No novo milênio, Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido como Pepetela, (Benguela, 29 de Outubro de 1941), escritor angolano vencedor do prêmio Camões de 1997, usou a fórmula para escrever sobre os problemas da sociedade angolana.
Toda a obra de Pepetela reflete sobre a história contemporânea de Angola e os problemas que a sociedade angolana enfrenta. Durante a longa guerra, Pepetela, angolano de ascendência portuguesa, lutou juntamente com o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) para libertação da sua terra natal. Seu romance Mayombe retrata as vidas e os pensamentos de um grupo de guerrilheiros durante a guerra; Yaka segue a vida de uma família colonial na cidade de Benguela ao longo de um século; e A Geração da Utopia mostra a desilusão existente em Angola depois da independência. A história angolana antes do período colonial também faz parte das obras de Pepetela, e pode ser lida em A Gloriosa Família e Lueji — é nestes abismos sociopolíticos do país africano que Pepetela põe a mira de cada um de seus tantos livros publicados em mais de 30 países.
No novo milênio, também ele mergulhou na fórmula. Criou o personagem Jaime Bunda, que arrastando sua avantajada bunda pelas misérias de Luanda continua, com eficiência, a trajetória de seu criador. Jaime Bunda, uma paródia de James Bond, cujo apelido faz óbvia referência à sua anatomia, é um personagem obcecado pelos filmes do agente inglês e romances policiais norte-americanos, aspecto que alguns críticos consideram como ilustrativo de elementos do subdesenvolvimento de Angola — rebaixando a fórmula!!!! Uau!
Jaime Bunda é membro da uma família tradicional angolana que, graças a uma rara capacidade de observação dos detalhes, e por influência do primo, um figurão do governo, consegue o cargo de detetive estagiário — sem muitas atribuições e tendo de aguentar a gozação dos colegas investigadores. Bunda, por fim, recebe a oportunidade de provar que é competente, em seu primeiro caso importante.
No primeiro dos dois romances, Jaime Bunda, Agente Secreto, publicado em 2001, o protagonista investiga um estupro e assassinato de uma adolescente. Jaime parte com entusiasmo para a apuração do crime, ainda sem suspeitos, e, com seus métodos excêntricos, acaba por se envolver em uma trama complexa que reúne escroques internacionais, altos funcionários do governo e uma mulher misteriosa. Na investigação, segue um falsificador sul-africano chamado Karl Botha, uma referência ao ex-primeiro-ministro sul-africano P.W. Botha, quem autorizou a intervenção sul-africana em Angola em 1975.
O segundo romance, Jaime Bunda e a Morte do Americano, publicado em 2003, tem lugar em Benguela em vez de Luanda, e trata da influência norte-americana em Angola. Jaime Bunda investiga o assassinato de um norte-americano e tenta seduzir uma agente do FBI: o romance apresenta a crítica de Pepetela à política exterior dos Estados Unidos, com o comportamento pesado da polícia angolana refletindo a maneira como os norte americanos trataram os suspeitos de terrorismo durante o mesmo período.
Os romances são populares em Portugal, também tendo êxito em outros países europeus, como a Alemanha, onde Pepetela era desconhecido antes de usar a fórmula. Os livros protagonizados por Jaime Bunda são leves, são levíssimos, mas dão o seu recado. Com pitadas de graça e sátira, o escritor passeia pela corrupção, pela anomia, pela miséria cristalizada de uma favela chamada Roque Santeiro, no miolo da capital Luanda.
“Jaime Bunda, Agente Secreto” é, acima de tudo, uma parábola da organização social de Angola. O autor usa seu olhar crítico para denunciar, com bom humor, o ranço colonial que ainda resiste nas instituições angolanas, e assim apresenta um retrato pouco conhecido de seu país, infelizmente, tão parecido com o Brasil.
terça-feira, 24 de abril de 2012
O Pulitzer e o dry martini
O Pulitzer e o dry martini
24/04/2012
No último sábado, lendo a seção “Panorama” da revista Veja, lá naquele cantinho de “o que desce e o que sobe”, me surpreendi ao ver Livros de Ficção em baixa! Uau! O que é isso? A realidade está tão sobrenatural, com tantos descalabros de corrupção, que já ninguém mais lê ficção? Lá estava a notícia: “Pela primeira vez em 35 anos o Prêmio Pulitzer, um dos mais importantes de literatura do mundo, decidiu não contemplar ninguém nessa categoria.”
O Pulitzer é um prêmio americano outorgado a pessoas que realizam trabalhos de excelência, basicamente, nas áreas do jornalismo, literatura e música, administrado pela Universidade de Columbia, em Nova York. Foi criado em 1917 por desejo de Joseph Pulitzer que, na altura de sua morte, deixou uma boa herança para a Universidade. Parte do dinheiro foi usada para começar o curso de jornalismo na universidade em 1912; outra parte continua mantendo o prêmio.
Estaria a prosa americana enfrentando uma crise? — é a pergunta natural que nos ocorre. Foram três os livros escolhidos, entre mais de 300 títulos. Responsável pela escolha final dos vencedores, o Conselho do Pulitzer informou que nenhum dos três atingiu a maioria necessária exigida, ou seja, dez votos entre dezoito.
Os três finalistas eram Train Dreams (Sonhos de Trem ou Sonhos no Trem?), de Denis Johnson, definido pelo comitê avaliador como “um romance sobre um dia de trabalho no velho-oeste americano, com olhar calmo e compassivo sobre suas glórias e terrores”; Swamplandia! (A terra do Pântano?), de Karen Russell, descrito como “um conto de aventura sobre uma excêntrica família, desorientada na condução de um problemático parque temático de briga de jacarés, com narração de uma heroína sábia demais para seus 13 anos de idade”; e The Pale King (O Rei Pálido?), romance póstumo de David Foster Wallace (1962-2008), que explora o tédio e a burocracia no local de trabalho americano.
Lendo estes resumos, fizesse eu parte do conselho e creio que também não iria votar em nenhum deles, mas não acho que a prosa americana esteja em crise. Talvez as histórias chatas estejam! Ninguém tem mais tempo para textos longos e chatos!
Tendo os escritores Denis Johnson, Karen Russell e, a título póstumo, David Foster Wallace como finalistas, o júri não conseguiu chegar a um consenso e o prêmio, não só de 10 mil dólares, mas de um fantástico prestígio, não rolou, este ano, na categoria. Em 1941 e 1974, também havia ficado vago, quando Por quem os Sinos Dobram, de Hemingway (1941) e O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon (1974) eram os favoritos.
Os finalistas deste ano ainda não foram publicados no Brasil, e imagino que as editoras que compraram os livros devem estar chiando! Afinal, o prêmio alavanca tremendamente as vendas…
Além desta notícia, há outra ainda mais extravagante. Em seu próximo filme, James Bond, o agente 007, trocará seu drinque favorito, o famoso Dry Martini (mexido e não batido), pela Cerveja Heineken, tudo em nome do merchandising! O ator da série foi trocado várias vezes, até o escritor já foi trocado, mas agora o drinque… sua marca registrada!
Pois é. Desde que mundo é mundo, quem paga a conta dá o tom. Ou será que Pulitzer está se revirando no túmulo e bebendo uma Heineken? That´s life.
Até a próxima!
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Robô-detetive
Robô-detetive
20/04/2012
Todos já devem ter ouvido falar em Isaac Asimov. O filme “Eu, robô”, de 2004, foi baseado na sua obra Robot, onde Asimov brinca com as leis da robótica criadas por ele mesmo. Para quem não se lembra, aí vão elas:
1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira e segunda leis.
‘Lei Zero’: Um robô não pode fazer mal à humanidade e nem, por inação, permitir que ela sofra algum mal.
Isaac Asimov nasceu na Rússia em 1920 e foi criado no Brooklyn, Nova York. Além de ter sido um marco na ficção científica, produziu uma grande quantidade de ficção de mistério e suspense. A maioria da sua obra era ficção de mistério voltada para a área científica, e inclui as histórias das séries David “Lucky” Starr e Robot.
Já tivemos uma crônica na KBR que o menciona como precursor das nossas tantas modernidades. Era um cientista de mão cheia e, a exemplo de Júlio Verne, escrevia sobre as possibilidades do futuro, as invencões que estavam por vir — entre elas muitas coisas que usamos na internet e telefones celulares.
Asimov pretendia escrever 500 livros, e por pouco não atingiu essa marca: escreveu 463 obras, mas somando todos os livros, desenhos e coleções editadas, totalizam-se 509 itens em sua bibliografia completa. Dentro dessa obra extensa e fantástica, também ele sucumbiu à fórmula policial: criou o detetive Lije Bailey e seu robô assistente.
Foram dois seus romances policiais:
The Death Dealers (1958), republicado mais tarde como A Whiff of Death e Murder at the ABA (1976), republicado mais tarde como Authorized Murder, nenhum deles publicado no Brasil.
Na sua obra, uma coisa muito interessante foi a publicação de um ensaio que infelizmente não teve tradução para o português: “How Good a Scientist was Sherlock Holmes?” (1980), no qual dá ao mais famoso detetive de todos os tempos os créditos por ele próprio, Asimov, ter usado seus conceitos científicos.
Até a próxima!
terça-feira, 10 de abril de 2012
Psicose: a morte como espetáculo
Psicose: a morte como espetáculo
10/04/2012
Na semana passada falei um pouco sobre Hitchcock. Uma pinceladinha! Existem centenas de livros sobre seu trabalho e não dá para resumir tudo numa crônica, e, aliás, crônicas muito longas desanimam o leitor. Volto a ele para falar de uns pontos que acho importantes.
É muito diferente trabalhar o suspense em imagens do que na escrita. No entanto, para quem escreve ajuda bastante observar cuidadosamente o trabalho de um grande mestre do suspense, e nesse quesito Hitchcock foi realmente o mestre. Também trabalhou muito bem a transferência da culpa, mas esta fica para uma outra investida.
“Psicose” é com certeza seu filme mais conhecido e estudado. Hoje, a violência tomou conta das telas e muitas vezes é feita de forma grosseira, mas quando “Psicose” foi filmado, a célebre sequência do assassinato de Marion (Janet Leigh) mostra um momento especial do cinema de medo e mistério. Depois de vermos a faca, Marion se despede da vida: braço esticado, mão acima do rosto, espalmada, não mais se defendendo dos golpes, mas já escorregando, submergindo na zona escura em que se aloja o seu corpo quase inerte.
Tudo se faz na passagem da luz à sombra. Uma sucessão rápida de fragmentos compõe na mente do espectador todo o horror de uma retaliação que não se mostra em nenhum plano. Ao final da sequência, lá está a vítima, sozinha, no estertor da vida.
Poderíamos dizer que é simplesmente mais um quadro na galeria de mulheres assassinadas no cinema, situação limite em que se pode decidir a reputação de um cineasta. E foi esta cena que fez os estudiosos do cinema afirmarem ser um momento de pura arte inspiração!
Nela, a morte é mostrada como um espetáculo. Por sua intensidade e duração, a morte de Marion é um momento especial. É difícil e desafiadora a reprodução, pela imagem em movimento, do instante sagrado de passagem da vida para a morte, quando esse momento único, de solidão, intransferível, se faz presente na tela.
A exibição da morte, do sexo e do crime faz parte do que os autores dos famosos Cahiers Du Cinema, chamaram de “cinema da crueldade”. A experiência do sexo, morte e violência dirigida ao próprio olho é também um ponto focal de atração das plateias, ansiosas por incursões simuladas em zonas de risco.
A experiência do medo assegurado é constitutiva, e marca a afinidade eletiva do cinema com a violenta ruptura da ordem moral que os espectadores simulam temer, mas desejam, num sistema de projeções que o cineasta incorpora — coisas que nem Freud explica e que gênios captam — e que consegue arrancar do fundo do inconsciente do espectador cada emoção. E mantê-los atentos até o final.
Caminhar nessa zona de risco, ser um ás na modulação dos sentimentos da plateia diante da exposição do que está implicado no desejo de cada personagem (e de cada espectador), é uma condição ímpar que fez de Hitchcock o mestre que ele foi.
No seu tempo, ao surgirem as novas linguagens no cinema europeu de autor, Hitchcock manteve-se fiel ao cinema de entretenimento, usando o suspense para captar o espectador, usando a fórmula de crime, investigação e solução. Além da cena mencionada, foi mestre no suspense psicológico, apoiado na pura dimensão do olhar, quando o que parece ser uma configuração de rotina, a paisagem, a rua ou a casa de todo dia, de repente se revela uma anomalia, um ponto de incongruência que atiça a percepção e aguça as expectativas, suscita indagação. O insólito dentro do cotidiano faz da cena inocente uma sugestão sinistra, produz insegurança e vontade de decifrar.
Para criar suspense, o escritor usa palavras, o cineasta usa posições de câmera, gestos e olhares de personagens. O objetivo é o mesmo. Captar as emoções e a atenção do espectador/leitor.
Até a próxima!
terça-feira, 3 de abril de 2012
Hitchcock, o mestre do suspense
Hitchcock, o mestre do suspense
03/04/2012
Falando mais um pouco sobre as tramas policiais, não podemos deixar de fora o cinema. Roteiristas e diretores aproveitaram, e muito, a fórmula policial para prender seus expectadores na história. Desde que o cinema foi inventado, as tramas policiais, os thrillers, são os filmes de maior bilheteria.
Vou falar um pouco sobre Alfred Hitchcock: gênio do cinema e mestre do suspense. Podemos perfeitamente iniciar assim o perfil do melhor diretor de todos os tempos e responsável por nada mais, nada menos, do que alguns dos melhores filmes da história. Num tempo em que não existia computador, nem efeitos especiais, ele criava cenas de suspense fantásticas, que até hoje são analisadas e copiadas.
Os filmes de Hitchcock trouxeram inovações técnicas nas posições e movimento das câmeras, nas elaboradas edições e nas surpreendentes trilhas sonoras que realçam os efeitos de suspense e terror — o clima de mistério é acentuado pelo uso de música forte e dos efeitos de luz. Nos filmes “hitchcockianos”, a ansiedade do espectador aumenta pouco a pouco, enquanto o personagem não tem consciência do perigo. São apresentados dados ao espectador que o personagem do filme não sabe, criando nele uma tensão para saber o que acontecerá quando o personagem descobrir. Em “Psicose”, somente o espectador vê a porta se entreabrir, esperando algo acontecer enquanto o detetive sobe a escada.
A obra de Alfred Hitchcock é hoje admirada no mundo todo, e os jovens que o descobrem, graças a reprises de, além de “Psicose”, “Janela indiscreta”, “Um corpo que cai, “Rebeca, a mulher inesquecível” etc., passam a admirá-lo imediatamente.
Cada um de seus trabalhos tem características únicas que, sem dúvida nenhuma, o transformou junto com seu talento no diretor mais famoso que já existiu. Nascido em Leytonstone, Londres, no dia 13 de Agosto de 1899, o inglês teve severa educação dos pais católicos, o que colaborou diretamente para seu interesse pelo crime.
Em 1919, com apenas 20 anos, conseguiu seu primeiro emprego na área cinematográfica, nos estúdios da Players-Lasky, onde fazia interlúdios de títulos nos filmes e aprendeu a escrever roteiros, editar e diversos outros recursos ligados à arte. Seu primeiro filme foi “The Pleasure Garden”, de 1925, apesar de ter substituído o diretor em “Always Tell Your Wife”, em 1922, e escrever roteiros desde 1923.
Em 1926, em seu terceiro filme, “O Inimigo das Loiras” (The Lodger), Hitchcock começou a nos encantar com seu dom de fazer suspense. Fala sobre Jack, um homem que é injustamente acusado de um crime após ser confundido com o estripador homônimo. Nesse mesmo ano, se casou com Alma Reville, e ficou com ela até que a morte os separou. Em 1928 nasceu Patrícia, que fez pontas em alguns filmes do pai (a secretária de “Psicose”, a irmã de “Pacto Sinistro” etc).
Hitchcock dirigiu filmes britânicos até “A Estalagem Maldita” (Jamaica Inn, 1939), quando se mudou para os EUA, contratado por David O. Selznick (produtor de “E o Vento Levou” e “Começou em Nápoles”). Deste contrato saiu um de seus maiores sucessos, “Rebecca: A Mulher Inesquecível” (Rebecca, 1940), a primeira fita do diretor a ganhar o Oscar de melhor filme.
A obra é realmente fantástica: fala de um homem viúvo que se casa com uma jovem, após falecer sua ex-mulher (interpretada por Joan Fontaine, que foi indicada ao Oscar pelo trabalho). Com o desenrolar da história, a menina sofre com a “sombra” da ex-mulher, perfeitamente representada pela empregada da casa, inclusive no visual — Hitchcock a vestiu com longos vestidos, que davam a impressão de fazê-la flutuar, afirmando e representando o fantasma da ex-mulher do dono da casa. Não se tratou apenas de mais um filme com uma bela história: Hitchcock confirma sua genialidade através das técnicas utilizadas, extremamente avançadas e cheias de recursos. A abertura já fala por si só: são longos planos em sequência, efeitos de luz e fumaça para já introduzir o público no clima de medo e suspense.
Ainda neste ano, Hitch produziu o ótimo “Correspondente Estrangeiro” (Foreign Correspondent, 1940), filme que trata de conspirações internacionais descobertas por um simples correspondente estrangeiro curioso. No ano seguinte, Joan novamente foi indicada ao Oscar, porém, desta vez, levando a estatueta para casa por seu trabalho em “Suspeita” (Suspicion, 1941), terceiro filme americano do diretor que começava a se consagrar um mestre em dirigir atrizes.
Diretor sempre muito inovador e criativo, nunca tinha medo de arriscar. “Festim Diabólico” (Rope, 1948), por exemplo, é um filme extremamente complexo e ousado. Em “Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954) criou uma enorme vizinhança nos estúdios da Paramount para ambientar sua trama de um jornalista com a perna fraturada que se envolve com as vidas dos vizinhos, ocupando assim o seu ócio e desconfiando de um assassinato cometido por um deles. James Stewart está impecável, Grace Kelly inesquecível.
No ano seguinte, dirigiu “Ladrão de Casaca” (To Catch a Thief, 1955), muito mais romance do que suspense, mas com uma temática secundária de crimes. É um de seus filmes com o qual o diretor menos simpatiza, talvez pelo fato de ter perdido sua loira Grace Kelly, que durante as filmagens conheceu o marido, o Príncipe Rainier de Mônaco e abandonou o cinema.
Em 1955, ganhou o seu próprio programa de televisão (“Alfred Hitchcock Presents…”), o que aumentou muito a sua popularidade e o transformou em um homem rico. O programa, que trazia diversos episódios com histórias de crimes e mistérios, durou até 1961.
“Um Corpo que Cai” (Vertigo, 1958) é considerado por muitos a obra máxima de Hitchcock. James Stewart encarna um detetive, prestes a se aposentar por um trauma do passado, que é contratado por um amigo para seguir sua mulher; desconfia que ela pode estar sendo possuída por um espírito, e acaba se apaixonando por ela. Depois que ela morre, tem que enfrentar todo o drama psicológico de acreditar que está sendo perseguido pela alma dela. O filme é um marco, fantástico em sua evolução, e serve de exemplo para as injustiças que a Academia comete: no Oscar de 1959, só foi indicado nas categorias de melhor som e direção de arte, e pelo menos levou a segunda estatueta para casa.
No seu clássico absoluto, a obra-prima “Psicose” (Psycho, 1960), Hitchcock quebrou todas as barreiras imagináveis do cinema. Além de rodá-lo propositalmente com um baixo orçamento, mostrou pela primeira vez na história do cinema um vaso sanitário (até então proibido pela censura); filmou todo em preto e branco (ignorando a tecnologia das cores para não criar um contraste com o sangue), escondeu uma forte sexualidade (a cena em que Norman vai atender o balcão e diz que estava comendo, quando na verdade estava transando com a protagonista), enfim, quebrou todas as barreiras possíveis e de tudo o que já havia criado antes. Isso, claro, sem falar na maravilhosa história com uma surpreendente (e quase única) troca de protagonistas no meio da produção, executada perfeitamente. A cena do chuveiro é uma das mais clássicas já vistas, com o gênio utilizando calda de chocolate para representar todo o sangue visto em tela.
O diretor ainda usou e abusou de recursos especiais em seus voadores de “Os Pássaros” (The Birds, 1963) para perseguir sua protagonista. Encerrou sua carreira com “Trama Macabra” (Family Plot, 1976).
Com todos esses sustos e cinismo ao seu redor, é até irônico pensar que, na verdade, Hitchcock era um homem caseiro, amante de sua família e um ótimo gourmet. Falar sobre ele numa crônica é muito pouco. Com certeza falarei mais de uma vez sobre suas técnicas para criar suspense.
Até a próxima.
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