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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O destino bate à sua porta

O destino bate à sua porta

Na semana passada, quando falei sobre o enredo do livro Acima de Qualquer Suspeita, revelei que ele possuía o mesmo enredo de Édipo Rei, ou seja, o personagem principal, o investigador, acaba chegando a si próprio: apenas uma pista de como ele realiza a investigação. Assim, para os leitores que não leram o livro, converti um efeito de suspense (quem é o assassino?) em um enigma de mistério (como foi que ele fez?).
Um mistério que se resolve é, em última análise, um acontecimento que conforta o leitor, que assegura o triunfo da razão sobre o instinto, da ordem sobre o caos, seja nas histórias de Holmes ou nos casos relatados por Freud.
Esta semana vou falar de um autor que inverteu a fórmula: ao invés de crime, investigação e solução, ele optou por contar como o personagem chegava ao crime, ou seja, usou a questão “como foi que ele fez”.
Voltando um pouquinho às origens do hard boiled, falei bastante sobre Chandler e Hammett. Vou falar um pouco sobre James M. Cain — um autor importante no estilo hard boiled americano. Houve inclusive um biógrafo que o chamou de “o ovo de vinte minutos da ficção supercozida”, o super Hard Boiled!
Cain custou a ser reconhecido como um escritor noir porque escreveu muitas outras coisas, de diferentes estilos. E quando escreveu romances noir, Edmund Wilson, o terror em crítica literária da época, o pichou e detonou sua reputação.
Enquanto Hammett e Chandler escreviam sobre detetives delicados/durões, que tentavam desenredar a confusão causada por outra pessoa com um ato violento ou ganancioso, Cain criava personagens bidimensionais, interessados apenas em si mesmos e motivados pelo desejo de dinheiro e sexo. São personagens falhos, por serem demasiado e inteiramente maus, e o autor não demonstra piedade por eles.

Diante da pergunta “como foi que ele fez?”, Cain desenvolveu o conceito de contar a história do ponto de vista do criminoso. O material de que foram feitos seus livros é o da grande literatura: dinheiro, sexo e morte. Com estes três elementos em jogo, os escrúpulos não contam muito.
Através das emoções do criminoso, o autor aos poucos cria a tensão psicológica capaz de levar ao assassinato.

Suas obras são muitas, entre elas A mulher do Mágico e A história de Mildred Pierce. Mas seu grande sucesso foi O destino bate à sua porta. Em 1934, quando foi publicado, este livro chocou tanto o público americano que foi condenado por imoralidade e proibido de circular em Boston.
Na verdade, neste romance, a violência e o erotismo estão organizados de tal maneira que dificilmente perderão força. A história é simples: o vagabundo de beira de estrada conhece a mocinha ordinária, que infelizmente é casada. Como o marido é um estorvo, que não os deixa muito à vontade para viver sua tórrida paixão, por que não acabar com ele de uma vez? São personagens secas e más. Movimentam-se em função da própria paixão e vão até o assassinato.
Também o texto é seco. A trama cerrada e a caracterização impecável dos personagens são outras virtudes deste clássico de James Cain.  Considerado na época rudimentar e grosseiro pela crítica, Cain hoje é visto como um clássico, e reconhecida a influência de O destino bate à sua porta sobre o aplaudido romance existencialista de Camus, O Estrangeiro (L’Étranger, 1941).
Em 1946, “O destino bate à sua porta” ganhou sua primeira versão cinematográfica, com Lana Turner no principal papel feminino; em 1981, refilmado com Jack Nicholson e Jessica Lange, teve sua contundência confirmada por duas interpretações magistrais.

Se eu tivesse que recomendar uma das duas, seria difícil. Minha recomendação é: assista ambas!
Até a próxima!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Advogados acima de qualquer suspeita

Advogados acima de qualquer suspeita

Logo que comecei a escrever sobre o gênero policial, mencionei que o primeiro detetive surgiu quando as grandes cidades começavam a se formar. O mundo, que passava por uma grande mudança, a revolução industrial, de lá para cá se tornou muito mais complexo. Não vou enumerar estas complexidades, pois uma crônica não seria suficiente.
No mundo moderno interagimos mais. No entanto, a natureza humana, sendo o que é, faz com que a interação gere disputas. Em gerações passadas, nossas diferenças eram geralmente dirimidas por instituições como igrejas, famílias, grupos comunitários. A maior parte da roupa suja era lavada em casa. Passado o sufoco após a Segunda Guerra, as pessoas passaram a apelar para os advogados. A resposta universal, aparentemente automática para qualquer erro ou prejuízo, é: “Vamos processar!”
As salas dos tribunais, nos últimos cinquenta anos, também se tornaram um caldeirão onde os valores nacionais são moldados. As cortes de justiça passaram a ser mobilizadas para arbitrar contendas de significação moral e até mesmo religiosa – direito de aborto, assédio sexual, discriminação baseada em preferência de raça, gênero sexual etc. As gerações que nos antecederam teriam certamente ponderado que estas questões eram inadequadas para o procedimento judicial; hoje, os tribunais têm a última palavra, e a roupa suja é lavada em público.
Na medida em que a influência de outras instituições sociais definhou, os tribunais preencheram a lacuna. Não é de admirar que as pessoas se mostrem curiosas sobre os mecanismos internos do judiciário. A partir desta modificação no sistema e na vida cotidiana das pessoas, nos Estados Unidos surgiram diversos livros em que o detetive é o advogado.
A fórmula “crime, investigação e solução” continua exatamente como nas histórias anteriores. A diferença é que a investigação em geral acontece nos tribunais. Quando o detetive aponta o criminoso, há uma sensação de que o mundo foi resgatado do caos, que a ordem foi restabelecida. Esta ordem estabelecida acontece no sentido legal, na medida em que os personagens se esforçam para compreender não apenas o que é certo e o que é errado, mas o sentido da justiça (um conceito mais difícil e ilusório) num mundo aparentemente mais injusto.
Foi neste mundo que surgiu Rusty Sabich, personagem de Scott Turow, no livro Acima de Qualquer Suspeita. Sabich, um promotor, descobre que sua colega Carolyn Polhemus foi assassinada de maneira brutal, e é obrigado por seu chefe Raymond a lidar com as investigações. Raymond quer se reeleger para o cargo que ocupa e concorre com Tommy Molto, que está de olho em Rusty e suas atividades.
É Tommy quem garante que Rusty estava no apartamento da morta no dia de seu assassinato e que deixou suas impressões digitais num copo. Rusty é preso e desprezado pelo chefe, que lhe nega apoio. Entra em cena um advogado que vai provar sua inocência com a ajuda do detetive Lipranzer, colega de trabalho de Rusty, e de Barbara, sua esposa.
Não posso afirmar que este tenha sido o primeiro detetive advogado. Mas foi o primeiro que eu li, e amei. E pasmem, a trama é a de Édipo! O personagem principal vai em busca de si mesmo… (Putz! contei o final da história!)
Édipo ouviu de Creonte que o antigo rei estava num comboio e tinha sido morto por salteadores; e anuncia que fará o possível e o impossível para capturar o assassino. Para ajudar na investigação, chama Tirésias, um velho cego que fica sabendo das coisas através do canto e do voo dos pássaros.
Este, porém, não quer falar sobre o acontecido, já que tal revelação poderia trazer mais infelicidade, principalmente para o rei. Após muitas ameaças deste, Tirésias diz que o assassino é o próprio rei. Édipo continua a investigação e acontece toda a tragédia para ninguém botar defeito!
“Acima de Qualquer Suspeita”, tornou-se filme em 1990, com direção de Alan J. Pakula, com ninguém menos que Harrison Ford no papel principal.
Além de Turow, John Grisham tem vários títulos nas nossas listas de mais vendidos, e teve todos os seus livros filmados. Seu primeiro livro foi Tempo de Matar, passado em um tribunal. O filme conta a história de Carl Lee, um pai que teve sua filha estuprada aos dez anos de idade por dois homens brancos, bêbados e racistas na cidade de Canton, no Mississippi.
Lee dispara tiros com uma metralhadora na entrada do julgamento (ainda não existiam detectores de metal), matando dessa forma os dois agressores. De quebra, deixa deficiente um policial que os acompanhava e se pusera na linha de tiro. Não vou contar o final!!
William Bernhardt criou o detetive Ben Kincaid. Seu primeiro livro, Justiça Cega, teve a mesma trajetória de sucesso.
Como vemos, a fórmula vai mudando, vai sendo adaptada ao momento histórico do planeta e consegue assim pegar o leitor. Até a próxima!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Meu nome é Bond, James Bond!

Meu nome é Bond, James Bond!

Na semana passada falei sobre Nero Wolfe, um dos detetives mais cerebrais da literatura mundial. Nele, além de ótimas refeições e criação de orquídeas, tudo era raciocínio.
No entanto, o que acabou por caracterizar o noir americano foi a ação, o detetive durão, as mulheres sensuais e perigosas, o automóvel, enfim, a fórmula absorvendo as modernidades de cada época.
O detetive durão é hoje tão parte do folclore americano quanto o pioneiro da fronteira ou o caubói, e como a maioria dos heróis muitas vezes tem seus feitos exagerados. Na verdade, a aparente ilimitada capacidade de beber dessas personagens e a maneira espantosa como se recuperam de surras, cacetadas e ferimentos sangrentos são quase sobre-humanas. Não há dúvida de que nenhum mortal comum poderia igualar-se.
Sempre me perguntei o que tornou tão populares essas figuras caricatas. Houve o período de depressão americana após a Primeira Guerra Mundial, em que muita gente se sentia frustrada diante dos chefões do crime organizado e políticos não muito sérios. O detetive que surgiu na ficção da época (especialmente Chandler, Hammett e M. Cain) estava empenhado numa cruzada contra os males da sociedade, se dedicando à manutenção da justiça. Como escrevi logo nas primeiras crônicas, é sempre uma luta do bem contra o mal, e o leitor precisa de um final feliz; sentir que o bem vence o mal, mesmo que seja somente na ficção, é o que faz do leitor um viciado.

Bem, na vida real aconteceu a Segunda Guerra Mundial e a figura do detetive continuou lá. Imbatível!
Nesse clima de pós-guerra, exatamente em 1953, surgiu James Bond no livro Cassino Royale, outra fórmula repetida várias vezes que deu certíssimo! Como o mundo inteiro sabe, James Bond é um agente secreto do serviço de espionagem britânico criado pelo escritor Ian Fleming.

Sei que é um desafio falar sobre personagens tão famosos, com muita literatura sobre o assunto. No caso, estou relembrando o personagem e mais uma das fórmulas que deu certo.
Antes de virar filme, Bond era literatura. Foi descrito como um homem alto, moreno, de olhar penetrante, viril, porte atlético e sedutor, com idade estimada entre 33 e 40 anos, apreciador de martini seco (batido, não mexido) exímio atirador com licença 00 para matar — sétimo agente desta categoria especial, daí seu código 007 — e perito em artes marciais, que combatia o mal pelo mundo a serviço do governo de Sua Majestade, com charme, elegância e cercado de belas mulheres, sempre se apresentando com a famosa frase “Meu nome é Bond, James Bond”.
O personagem, apresentado ao público em livros de bolso na década de 1950, tornou-se um sucesso de vendas e popularidade entre os britânicos e, logo a seguir, entre os países de língua inglesa. Na década seguinte, os livros viraram uma grande franquia no cinema, a mais duradora e bem-sucedida financeiramente, com um total de vinte dois filmes oficiais, começando com O Satânico Dr. No, em 1962.
Ian Fleming escreveu doze livros e dois contos protagonizados por James Bond, antes de morrer, em 1964. Após sua morte, outros livros foram escritos por Kingsley Amis e Raymond Benson, entre outros. Foi uma fórmula de tanto sucesso que outros autores conseguiram dar continuidade.
Às vezes me pergunto o porquê de tanto sucesso para uns e nenhum para outros. No caso de James Bond, além da fórmula que se adaptava ao pós-guerra e à Guerra Fria, o detetive ainda usava e abusava das engenhocas (gadgets) criadas pela tecnologia, que havia avançado muito durante a guerra. Outro fator foi que quando lançaram o primeiro filme James Bond foi interpretado pelo então semidesconhecido ator escocês Sean Connery. Feito com orçamento pequeno, o filme estourou nas bilheteiras de todo o mundo, transformando Connery num ícone dos anos 1960.
Além do carisma e do charme do personagem principal, havia os mirabolantes vilões, as engenhocas mortais de alta tecnologia, suas canções-tema e as maravilhosas Bond-girls! Tinha que dar certo!
Para quem é escritor, sempre é bom saber um pouco sobre o autor de personagens tão famosos. Ian Fleming era filho da nobreza britânica; estudou no famoso Eton College, cursou a Academia Militar Real de Sandhurst e deixou sua mãe furiosa ao trocá-la por um curso de idiomas nos Alpes sem sequer ter conseguido um mínimo posto de oficial. Não conseguiu ingressar no serviço de estrangeiros e, com 23 anos, não tinha carreira nem perspectivas. Trabalhou como jornalista em Moscou durante quatro anos, e posteriormente como corretor na bolsa de valores de Londres até o ano de 1939.
Durante a segunda guerra mundial, Fleming foi designado ao serviço de inteligência na Marinha britânica e, devido aos seus conhecimentos e facilidade com idiomas, serviu como assistente pessoal do Almirante John H. Godfrey, cujo perfil serviu parcialmente como modelo para o desenvolvimento da personagem “M”, o superior hierárquico de James Bond.
Durante a guerra, Fleming esteve envolvido com magos e astrólogos de peso, como Aleister Crowley, que se infiltravam entre os nazistas, pasmem, implantando informações em documentos secretos, como a falsificação de horóscopos. Fez tudo isso e mais um pouco até que, aos 45 anos de idade, acertou retomando a fórmula policial, agregando as novidades da época e criando James Bond na região do Caribe, mais precisamente na Jamaica, onde Fleming escreveu a maioria dos livros e onde se casou com Lady Ann Rothermere em 1952, filha de Lord Rothermere, proprietário do Daily Mail.
Ian Fleming morreu aos 56 anos, vítima de um ataque cardíaco na manhã de 12 de agosto de 1964, num campo de golfe, no condado de Kent. Seus livros foram traduzidos para muitos idiomas e são vendidos em edições sucessivas em todo o mundo. Os filmes vêm sendo filmados e refilmados! Vários atores já fizeram James Bond no cinema, todos eles com estrondoso sucesso!
Sorte e talento! Até a próxima.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Seguidores famosos

Seguidores famosos

Ao observar o gênero policial, podemos ver que os autores bem-sucedidos foram usando a fórmula com sabedoria e agregando detalhes da época. Os seguidores da fórmula criada por Poe foram muitos. Pretendo falar de alguns deles, hoje Rex Stout (1886-1975). Ele criou uma fórmula que repetiu 46 vezes, sem escrúpulos, e vendeu muitos milhares de livros, que se desdobraram em filmes e séries de TV, 46 histórias com o famoso detetive Nero Wolfe, considerado o mais cerebral de todos os detetives americanos: gordo, gastrônomo, leitor de poesias e criador de orquídeas.
Nero Wolf jamais deu um passo fora de casa para resolver as equações de sangue e mistério que lhe eram apresentadas. Isso ficava por conta do narrador das histórias, a exemplo de Dr. Watson, seu assistente Archer Goodwin. Ele era jovem e esbelto como manda o figurino, encarregado de arrebanhar para a casa (com orquidário e um cozinheiro invejável), no coração de Manhattan, todos os protagonistas e antagonistas da encrenca em pauta. Ali, reunidos diante da escrivaninha de Wolfe, eram submetidos à astúcia dedutiva do nosso detetive até que, do entrechoque das versões e contraversões, de confissões e atos falhos, desabrochava, como uma flor do seu orquidário, o irrefutável culpado.
Você que está lendo esta crônica, com certeza já leu uma dessas histórias! Muitas delas foram publicadas no Brasil! Eu li e reli nem sei quantas! Além de gostar demais de Nero Wolfe como detetive, gosto do seu charme nas refeições; quando nem se falava em harmonizar vinhos, cervejas e comidas, ele o fazia com maestria.
Mas vamos começar do começo. Rex Stout nasceu no estado de Indiana, de uma antiga e tradicional linhagem de quakers. Pouco depois do seu nascimento,  seus pais, John Wallace Stout e Lucetta Elizabeth Todhunter Stout, mudaram-se junto com os seus nove filhos para o estado do Kansas. Seu pai era professor e encorajou-o a ler. Diz a lenda que ainda na infância Rex leu a Bíblia inteira por duas vezes. Aos treze anos, foi campeão estadual do concurso de soletrar. Mas ele era bom mesmo em matemática.
Estudou na Universidade do Kansas. De 1906 a 1908 serviu na marinha dos Estados Unidos, e durante os quatro anos seguintes trabalhou em cerca de treze empregos diferentes em seis diferentes estados americanos. Esporadicamente, vendia poemas, histórias e artigos para diversas revistas, entre as quais a All-Story Magazine. Em 1916, devido à sua fluência em matemática e à invenção de um sistema bancário escolar, ganhou dinheiro suficiente para lhe permitir extensas viagens pela Europa. Tratava-se de um sistema de registro de poupanças efetuadas pelos alunos, pelo qual recebia royalties, e que foi adotado em cerca de 400 instituições de ensino dos Estados Unidos. Em 1929, em Paris, escreveu o seu primeiro livro, How Like a God. Regressou aos Estados Unidos e começou uma carreira literária que incluía romances policiais, contos e ficção científica.
Foi em 1934, com quase 50 anos e a publicação de Fer-de-lance (no Brasil, Serpente ou Picada Mortal), a primeira história protagonizada pelo detetive Nero Wolfe, que ele atingiu reconhecimento da crítica e do público. Esse livro foi adaptado dois anos depois para o cinema sob o título de “Meet Nero Wolfe”, dirigido por Herbert Biberman, com Edward Arnold no papel principal e Lionel Stander como Goodwin.
No ano seguinte, Stout publicou The League of Frightened Men (A Confraria do Medo), que foi adaptada para o cinema com Walter Connolly no papel principal e mantendo Stander como Archie Goodwin.
O escritor foi presidente do Author’s Guild e dos Mystery Writers of America. Em 1959 recebeu o Grand Master Award. Stout foi ativo em causas liberais e ignorou uma intimação da Comissão das Atividades Antiamericanas, no auge da era McCarthy. Anos mais tarde, perdeu muitos amigos liberais devido à sua posição em favor da intervenção dos Estados Unidos na guerra do Vietnam. No auge do sucesso, mudou-se para a França. Dizem que ele trabalhava em seus escritos três a quatro meses por ano; no resto do tempo cuidava da fantástica villa em que vivia.
Suas histórias foram publicadas e venderam muito. Também se transformaram em filmes e séries para TV. Nero Wolfe foi representado no cinema entre as décadas de 1930 e 1980. Em 1981, Nero Wolfe, representado por William Conrad, deu título a uma série de televisão de 14 episódios produzida pela Paramount Television e transmitida pela National Broadcasting Company (NBC). Em 2001 foi iniciada uma série televisiva com Maury Chaykin no papel de Nero Wolfe e Timothy Hutton representando Archie Goodwin. Esta série transmitiu 29 episódios em duas temporadas.
Nero Wolfe era tão bom que o escritor Robert Goldsborough tentou revivê-lo nos anos 1980, mas não obteve sucesso. Rex Stout morreu em 1975 na sua suntuosa villa no Mediterrâneo.
Como se vê, uma fórmula bem adaptada pode dar certo!

domingo, 28 de agosto de 2011

Noir

Noir

Na crônica da semana passada falamos do hard boiled, detetive durão insensível, e seus primeiros expoentes: Hammett e Chandler.
Ambientadas em meados do século passado, entre a grande depressão e os “anos dourados”, muitas histórias foram criadas. E tratam de uma América em crise, onde a construção da futura maior nação capitalista do mundo convivia com hordas de desempregados e aventureiros lutando pela vida.
Era uma América contaminada pelo desencanto, onde não havia ilusões entre os desvalidos nem complacência entre os vencedores: um mundo contraditório, cheio de reações ambíguas e homens violentos, os chamados “durões” — expressão imortalizada justamente por este gênero.
Nas histórias há sempre um detetive particular, maltratado pela vida e pelos tiras, que se envolve em casos geralmente estranhos, num mundo com sua lógica própria; são ricaços inescrupulosos, mulheres enigmáticas, prostitutas de luxo, escroques, assassinos de aluguel, tiras corruptos, enfim, gente da pior qualidade mesclada a perdedores de coração mole, tudo a 25 dólares por dia, mais despesas.
Foi a partir dessas histórias publicadas em livros, e também na revista Black Mask, que foi criada na França uma coleção para publicar estas mesmas histórias, todas com capa preta e impressas em papel vagabundo.
O termo pegou. Embora o gênero não tivesse sido inventado na França, a ideia de publicá-las em livros baratos com capas pretas — “noir” — nomeou o gênero. Apropriando-se dele, o cinema — utilizando a fórmula “crime, investigação e solução” e retratando personagens cínicos e durões insensíveis — fez um tremendo sucesso com seus filmes em branco e preto.
Como já disse anteriormente, não sou especialista em livros policiais, sou viciada na leitura deles! Penso o livro policial como o jazz da literatura: as músicas ou movimentos musicais estão sempre superando o que aconteceu antes, inventando e mesclando ritmos, mas o jazz é o Jazz.
Foram criados temas que vão evoluindo à medida que evoluem tecnicamente os instrumentos, mas a base, o tom do jazz, não muda. Enquanto outros movimentos se esgotam, ele continua: é uma grande arte.
O mesmo se diz do romance policial. Enquanto outras formas vão tendendo para o caótico, o romance policial se mantém com começo, meio e fim, e com a mesma fórmula: crime, investigação, solução… e sucesso absoluto de vendas.
noir, com a evolução de colocar o detetive nas ruas, usar e abusar do automóvel, com seus detetives durões e mulheres fatais, começando pelo Falcão Maltês, teve seguidores fantásticos.
James Cain (anos 1930/40), de O Destino Bate à Porta e A Mulher do Mágico, também foi dos inovadores. A maioria das suas tramas segue o mesmo esquema: um homem se apaixona por uma mulher, se envolve em uma atividade criminal com essa mulher e é traído por ela.
Ele desenvolveu o conceito de contar a história do ponto de vista do criminoso. Em o Destino Bate à Porta, um jovem errante deseja a esposa do velho dono de um boteco e, em consequência, os dois planejam o assassinato do marido. Foi um best-seller instantâneo, filmado logo depois. Cain diferia de seus antecessores por fazer de quase todos os seus personagens, senão todos, pessoas genuinamente desagradáveis e más, e revelar através das emoções delas como acabavam chegando ao assassinato.
Enquanto Hammett e Chandler escreviam sobre detetives bons/maus, delicados/durões, que tentavam desenredar a confusão causada por outra pessoa com um ato violento ou ganancioso, Cain criava personagens bidimensionais, interessados apenas em si mesmos, e motivados pelo desejo de dinheiro ou sexo. São personagens falhos, por serem demasiado e inteiramente maus, e o autor não demonstra piedade por eles.
Cain teve um biógrafo que o chamou de “o ovo de vinte minutos da ficção supercozida”, o Super Hard Boiled!
Ross Macdonald (anos 1960/70) criou o detetive Lew Archer, ex-policial de Long Beach, Califórnia, que foi demitido porque não tinha estômago para a administração corrupta da polícia à qual era forçado a servir, e por isso se tornou detetive particular (o mais famoso daquela época). Descrito como um homem solitário, que age com mais eficácia nas sombras, ele é também um “catalisador involuntário de problemas”. Trabalha num escritório pequeno e frio, mas surpreendentemente cheio de livros (que ele avidamente lê quando não está ocupado com um caso). As paredes têm pinturas modernas de boa qualidade.
Archer é diferente de muitos outros detetives durões, no sentido de que não se compraz com sexo promíscuo e tem uma verdadeira afinidade com pessoas jovens. Paul Newman o imortalizou.
Na próxima conto mais!

sábado, 20 de agosto de 2011

Hard boiled

Hard boiled

Continuando nossa historia do gênero policial, vamos dar uma relembrada. O primeiro detetive foi criado por Allan Poe. Em seguida, entre uma e outra baforada de cachimbo, Sherlock Holmes, o personagem criado pelo escocês Sir Arthur Conan Doyle, ficou famoso por desvendar mistérios através de métodos científicos, de observação detalhada e da lógica dedutiva.
Considerado um dos mais importantes personagens da literatura policial, o lendário Hercule Poirot foi criado em 1916 pela eterna dama do crime, Agatha Christie. O metódico detetive belga, sempre vestido de forma elegante, com seu bigode inconfundível, não gostava de perseguir pistas como pegadas ou impressões digitais. Preferia resolver mistérios sentado em sua poltrona, com a ajuda da “massa cinzenta”.
Jules Maigret era um detetive pouco ortodoxo, que trabalhava em um escritório de investigações criminais no Quai des Orfèvres, na capital francesa. Seu método de trabalho se caracterizava pelo uso da intuição em detrimento das evidências factuais. Em vez de descobrir como se deu um crime, Maigret preferia saber o que motivou o criminoso.
Há outros escritores, mas esses foram os mais importantes, que foram incorporando características mais marcantes em seus personagens. A grande virada foi a publicação de O Falcão Maltês.
No final dos anos 1920 (após a depressão), aconteceu uma guinada no perfil da ficção policial. Dashiell Hammett criou a figura do detetive durão, de humor corrosivo e moral menos rígida, o hard boiled.
Na época, Ernest Hemingway estava fazendo uma revolução na literatura “séria”: criava um estilo de histórias com passos rápidos, diálogos curtos, uso e abuso do coloquial, personagens violentos e fatalistas. Dashiel Hammett com certeza leu Hemingway, e isso influenciou todo o estilo  hard boiled.
Dashiel Hammett foi detetive de uma agência na Califórnia e começou a publicar histórias de detetive na revista Black Mask. Na época, os contos publicados nessa revista eram muito bem remunerados! Com esses contos, começou a colocar a literatura policial para ferver, tirando-a da água morna dos detetives cerebrais e colocando o detetive na rua, pronto para o que desse e viesse. Já nos primeiros contos, seus detetives eram profissionais; não tinham nada a ver com aqueles ingleses diletantes, cuja reação mais expressiva diante de um caso complicado era encher um cachimbo ou regar orquídeas. Hammett vestiu seu detetive com roupas bem comuns; enfiou-lhe um chapéu na cabeça, armou-o com um 38, obrigou-o a sair de casa e enfrentar a investigação cara a cara com a situação, o que representou uma grande virada: o detetive nas ruas.
No hard boiled, o detetive deixa de ser a máquina pensante, vai para a rua dando socos e tiros. Já não tem o narrador: atua em primeira pessoa. No entanto, não deixa de ser um dedutivo, e não se perde na luta do bem contra o mal. Um cavaleiro pelas ruas em busca de justiça!
Outra novidade que encantou todo o mundo foi a introdução da mulher inescrupulosa, perversa e fria, atuando de igual para igual com os piores sujeitos e, por comparação, os fazendo até parecer idiotas.
Hammett viveu 30 anos com Lillian Helman, que era a mulher mais feia do mundo. Mas em suas histórias, ele descrevia mulheres maravilhosas.
As histórias aconteciam nas ruas. Por isso o automóvel, outra novidade dos anos 1920, era muito importante.
Sam Spade não tinha carro, talvez porque Hammett não dirigisse. Mas, em seguida, o detetive de Chandler, Philip Marlowe, tinha um Chrysler.
Na época em foi publicado O Falcão Maltês, 1929, o grande crítico americano era Edmund Wilson, que punha a literatura policial abaixo de zero. Arrasava para valer! Apesar disso, o público se apaixonou por aquele tipo de ficção urbana, moderna, amoral, violenta e povoando de personagens novos a paisagem literária.
Além de as pessoas se apaixonarem pelas histórias, o cinema viu na fórmula policial a estrutura ideal para prender a atenção e começou a usá-las. Usou-as e as divulgou com toda a força que possuía. De repente, as pessoas ficavam ligadas em histórias onde carros rolavam pelas ribanceiras, casas eram explodidas com gente dentro, inocentes eram mortos a sangue frio.
Logo após o sucesso estrondoso de Dashiel Hammett, ele foi copiado por gente do calibre de Raymond Chandler, James Cain e Ross Macdonald, o que prova que ele criou um estilo. O que se diz é que Hammett fez primeiro, mas Chandler fez melhor!
Falcão Maltês saiu em 1929 e O Sono Eterno de Chandler saiu em 1939. Por causa dele, a literatura do século XX começou a deixar de ver o romance policial como algo dos porões e começou a convidá-la para a sala de jantar. Chandler conseguiu com que o temível Edmund Wilson dissesse que seus livros pertenciam às prateleiras “um pouco” mais sérias.
Chandler também começou na revista Black Mask, onde escreveu até que criou o detetive Philip Marlowe que, como Sam Spade, era um detetive durão e insensível. Mas Chandler conseguiu fazer dele um personagem um pouco mais profundo em termos psicológicos.
O detetive Philip Marlowe, que tinha quarenta e poucos anos, era descrito como um homem alto, de olhos cinzentos e “com um queixo de pedra”, um durão lacônico e metido a engraçado, mas também muito inteligente (tinha curso superior), introspectivo e um profundo conhecedor da natureza humana. Marlowe operava seu negócio de um homem só em Los Angeles. Era um homem movido pelo desejo de justiça e cooperava com a polícia.
Marlowe gostava de xadrez e poesia. Bebia um bocado e não temia riscos físicos nem usar violência quando necessário. Moralmente correto, encontrava em suas aventuras várias “mulheres fatais”. Chandler se esforçou em desenvolver uma forma de arte em suas histórias policiais. O Sono Eterno foi publicado quando Chandler tinha 51 anos; sua última novela, Playback, aos 70 anos. Todas as oito novelas do criador de Marlowe foram escritas nas duas últimas décadas de sua vida.
Marlowe foi interpretado no cinema pelos atores Humphrey BogartRobert MontgomeryGeorge MontgomeryRobert MitchumDick PowellElliot GouldDanny GloverJames Garner e James Caan. Ufa!
Com tudo isso, tornou-se um hard boiled inesquecível! Até a próxima!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A fórmula, na França e no Brasil

A fórmula, na França e no Brasil

Na semana passada falamos um pouco sobre as damas do crime, seus cadáveres encontrados em ambientes fechados e bons detetives, conhecedores da alma humana, investigando e apontando o culpado. É preciso não esquecer de que todas elas se formaram na época em que Freud elaborava as bases das ciências psi, daí seus detetives serem tão versados no conhecimento da alma humana.
Em 1903 nasceu Georges Simenon, escritor belga de língua francesa. Foi um romancista de uma fecundidade extraordinária: escreveu 192 romances, 158 novelas, além de obras autobiográficas. Escreveu numerosos artigos e reportagens com seu nome e outro tanto sob diferentes pseudônimos.
Para a história do gênero policial, o que interessa é seu personagem, o Comissário Maigret, protagonista de 75 novelas e 28 contos. Vendeu milhares de livros em todo o mundo!
O Comissário Maigret surgiu em 1931. Fumante de cachimbo, usava sempre sobretudo de gola de veludo acompanhado do chapéu. Era um homem grande e gostava de boa comida. Pode-se dizer que Maigret rivaliza em prestígio com os mais famosos detetives da literatura policial, como Sherlock Holmes e Hercule Poirot; e é, sem dúvida, o mais humano.
Parisiense, vivia num apartamento no Boulevard Richard-Lenoir com sua esposa Louise. Simenon criou para seu personagem uma tranquilidade doméstica que ele próprio, segundo suas autobiografias e biografias, jamais teve. Maigret viveu apaixonado por sua esposa e sempre foi seu amigo e confidente. Enquanto resolvia seus casos, gostava de ir para a casa, conversar com sua esposa. A única pedra no seu sapato era o magistrado Cornelius.
Nas suas histórias, não existe um conhecimento muito profundo da alma humana. Maigret envereda pela psicopatologia do cotidiano (Freud, 1901). Gostava de ir ao local onde o crime havia ocorrido, em geral pequenas vilas francesas, e sentir a atmosfera, observar pequenos detalhes, como a maneira da mulher pegar no braço do marido e como se comportavam as pessoas no primeiro encontro; sentir os pequenos deslizes, pequenas coisas esquecidas em determinados locais.
Enquanto ele está “sentindo” o local, o leitor tem a sensação de que ele não está fazendo nada. Mas ele está observando todos os pequenos detalhes, uma observação sempre seguida de um olhar cético sobre a sociedade. E é por aí que os casos são resolvidos. Mais do que um crime a ser desvendado, é a correta colocação de cada personagem em seu ambiente e a valorização dos dramas humanos que fazem dele um autor consagrado.
Simenon usava um vocabulário relativamente pequeno, de 2 mil palavras, para escrever suas histórias. Propunha uma intriga simples, mas com personagens fortes, um herói humano, obrigado a ir ao fundo de sua lógica. A mensagem de Simenon é complexa e ambígua: nem culpados, nem inocentes, mas culpas que se engendram e se destroem em uma cadeia sem fim. Seus romances colocam o leitor em um mundo rico de formas, cores, sentimentos e sensações desde a primeira frase.
Seus melhores romances são baseados em intrigas e assassinatos nas pequenas vilas de províncias francesas. A investigação evolui à sombra de personagens de aparência respeitável, que engendram empresas tenebrosas. É nesse clima que o comissário Maigret come especialidades locais, bebe boas bebidas e acaba apontando o assassino.
Até aqui, falei bastante sobre o policial europeu. No entanto, é preciso saber que aqui no Brasil, em 1920, escreveu-se a primeira narrativa policial de que se tem notícia. Foi publicada em capítulos pelo jornal A Folha a partir de 20 de março, e editada em livro no mesmo ano. A narrativa, chamada O Mistério,  foi escrita por quatro escritores, ou seja, a oito mãos: Coelho Neto, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque e Viriato Corrêa. Além deles, o exemplo mais famoso de parceria em policiais é a dupla de primos norte-mericanos Manford Lepofsky e Daniel Nathan, que criou o autor detetive Ellery Queen.
No caso de O Mistério, a parceria se dava com cada um dos autores escrevendo um capítulo e o próximo deveria continuar dali, sem um planejamento prévio. No romance, temos o Major Mello Bandeira, detetive policial encarregado de investigar um caso de assassinato. Ele é relacionado à literatura policial europeia e descrito como o “Sherlock da cidade”. Esta característica acaba sendo motivo de situações cômicas. Ao tentar aplicar métodos científicos tecnológicos de investigação na linha Holmes, o Major Mello Bandeira acaba por se dar mal e por ser alvo da ironia dos companheiros. Ao colocar cães rastreadores no encalço do criminoso, eles acabam se voltando contra o próprio investigador, que esqueceu em seus bolsos as luvas e os sapatos do assassino.
Mello Bandeira procura ser, como Holmes, uma máquina de raciocinar. Mas o surpreendemos em uma atitude carinhosa com uma das moças detidas para investigação. Tal deslize, naquele que pretendia ser o protótipo da máquina de pensar, não é perdoado por Medeiros e Albuquerque, que faz com que a personagem se suicide.
Como podemos ver, a fórmula, aos poucos foi evoluindo segundo o pensamento da época e se espalhando pelo mundo, chegando até o Brasil.
Até a próxima!