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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Onde tudo acaba em pizza

Onde tudo acaba em pizza

Numa das primeiras crônicas que escrevi sobre o gênero policial mencionei o livro O Mistério, que foi publicado em capítulos no jornal A Folha a partir de 20 de março de 1920, e logo depois editado em livro pela Companhia Editora Nacional.
Volto ao assunto, pois foi o primeiro livro policial produzido no Brasil e ditou por muito tempo o tom de sátira aos nossos escritores. Em O Mistério, não só o detetive protagonista e a polícia como instituição são alvos do cômico, mas a própria narrativa é ironizada em vários aspectos.
Em primeiro lugar, encontramos uma desvalorização do gênero policial. Logo no primeiro capítulo, ao apresentar o assassino, afirma-se que ele “lera centenas de romances e contos policiais, não pelo prazer que pudesse fazer essa baixa literatura, mas pelo desejo de estudar todos os meios de levar a cabo o crime que projetava e de escapar à punição.” (grifo meu)
O detetive protagonista Mello Bandeira, que procura ser como Holmes, uma máquina de pensar, é surpreendido em uma atitude carinhosa para com uma das moças detidas para investigação. Tal deslize não é perdoado, o que faz com que o personagem se suicide.
Por outro lado, o assassino Pedro Albergaria é a personagem através da qual os autores farão críticas à polícia mais insistentemente: denuncia-se seu comprometimento com a classe dominante, sua subordinação à imprensa e à opinião pública, seus métodos violentos de obter informações e confissões e a participação da polícia na contravenção.
Ao final do livro, Pedro Albergaria confessa seu crime e vai a julgamento. Apesar de réu confesso, é absolvido, o que transforma o assassinato de Sanches Lobo em um crime impune. Logo que Pedro Albergaria confessa seu crime, Dr. Viriato Corrêa, seu advogado, já vê nesse crime, em primeiro lugar, um “drama magnífico a desenrolar-se no tribunal popular”. Além disso, o advogado resolve munir-se de um esquema de chantagem emocional, pois, segundo a narrativa, “brasileiro é piedoso, consente, vá lá que se mate e roube… mas que o assassino ou ladrão sejam presos, coitados! Isto é que não, isso é que é demais – na rua com eles!”
Desde então foram muitas as incursões de autores brasileiros no gênero policial. Não se pode afirmar que o Brasil possua uma Literatura Policial com letra maiúscula, fisionomia definida e consolidada. A ficção policial brasileira é um organismo ainda em formação que, aos poucos, vai adquirindo traços mais vívidos, pondo em relevo características comuns presentes na prosa e no estilo dos nossos escritores, eu incluída entre eles: venho tentando me firmar no gênero, com o detetive Alyrio Cobra.
Observando nossa primeira história policial, recordei-me do recente sucesso do livro 1808, fundamentado em pesquisa histórica, que conta como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte completamente corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. Indo uns poucos anos para trás, até 1995, acredito que a maioria dos brasileiros se estarreceu com o filme de Carla Camurati, Carlota Joaquina, princesa do Brasil. Digo “se estarreceu”, não pela qualidade do filme, muito bom, mas por estar pela primeira vez tomando conhecimento dessa história maluca, onde tudo era sátira, e tão parecida com a realidade do nosso presente político!
Nem vamos enveredar pelo realidade atual das nossas classes governantes, o que não é o assunto desta crônica. Mas parece que tudo se completa, desde a sátira em relação ao gênero policial. Repetindo as palavras do famoso jornalista Bóris Casoy, parece que aqui tudo acaba em pizza com sobremesa de marmelada.
Até a próxima.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A grande virada!

A grande virada!

Edmund Wilson, famoso crítico literário, por toda a vida colocou o autor de romances policiais abaixo dos cachorros. Apesar do esforço de diversos escritores para mudar sua opinião, continuou escrevendo que se tratava de literatura de segunda linha.
Jamais acreditei que existam gêneros de primeira ou segunda linha. Acho que existe literatura ótima, excelente, boa, regular ou péssima, dependendo unicamente da habilidade de cada autor, independente do gênero que escrevem.
Em relação ao policial, em 1980 ocorreu a grande virada. Umberto Eco, o maior estudioso da Idade Média na Europa, aproveitou a fórmula em seu livro O nome da rosa. Já não se podia afirmar que usá-la era sinônimo de escrever romances de segunda linha.
Falar sobre obras consagradas como O Nome da Rosa é uma audácia e um desafio. Como sempre, tendo a abordar o que remete ao gênero policial: o enredo gira em torno das investigações sobre uma série de crimes cometidos dentro de uma abadia medieval. Na história, temos um frei chamado Guilherme de Baskerville e seu ajudante Adso de Melk — torneados à imagem e semelhança do detetive Sherlock Holmes e seu caro Watson —, que em uma abadia italiana no século XIV topam com uma série de misteriosos assassinatos.
O investigador, frade franciscano, assessorado pelo noviço, vai fundo em suas investigações, apesar da resistência de alguns religiosos do local; e desvenda as causas do crime, ligadas à manutenção de uma biblioteca que abrigava em segredo obras apócrifas — que não seriam aceitas em consenso pela igreja cristã da Idade Média. Ou seja, crime, investigação e solução.
Umberto Eco brinca de tal forma com a fórmula que seu personagem principal, o Sherlock da história, tem como sobrenome uma das principais aventuras do famoso detetive, O Cão dos Baskervilles.  À semelhança de Watson, o jovem Adso de Melk, filho do Barão de Melk, é o narrador da história. Apesar de Umberto Eco ser doutor em semiótica, estética e teoria da comunicação, e professor da Universidade de Bolonha, foi O nome da rosa que o projetou mundialmente como escritor.
Até então, o prazer da leitura do livro policial era a aventura, o querer saber o que vai acontecer, o desmascarar do criminoso e a reimplantação da ordem. Em O nome da rosa, a este prazer típico da fórmula agregou-se o de curtir a fantástica erudição do autor e as inúmeras questões propostas no livro.
A história conta mais ou menos o seguinte: em 1327, Guilherme de Baskerville e Adso de Melk, noviço que o acompanha, chegam a um remoto mosteiro no norte da Itália. Baskerville pretende participar de um conclave para decidir questões da Igreja, mas sua atenção é desviada para vários assassinatos que acontecem no mosteiro. Começa a investigar o caso, que se mostra bastante intrincando, indo além da crença dos mais religiosos de que tudo era obra do Demônio.
Baskerville não partilha desta opinião, mas antes que conclua as investigações chega ao local Bernardo Gui, o Grão-Inquisidor,  pronto para torturar qualquer suspeito de heresia, principalmente os que tenham cometido assassinatos em nome do Diabo. Como não gosta de Baskerville, Gui o coloca no topo da lista dos que são diabolicamente influenciados. O poderoso inquisidor está determinado a erradicar a heresia através da tortura e, se Baskerville persistir em sua busca, também se tornará caça. Mas à medida que Bernardo Gui se prepara para acender a fogueira da inquisição, Baskerville e Adso voltam à labiríntica biblioteca e descobrem uma verdade extraordinária, desvendando os assassinatos.
Na época em que foi publicado, o editor de Eco acreditava que seriam vendidos trinta mil exemplares. Foram vendidos trezentos mil! Em seguida, Eco escreveu o Pós-escrito ao nome da rosa, segundo ele “um romance policial no qual se descobre muito pouco”. Atrás da fórmula policial, nos bastidores de O nome da rosa há existe uma série de intrincados debates que o leitor dificilmente desvendará, a começar pelo próprio nome do livro — que relembra a problemática suscitada pelo nominalismo entre o que é essencial e sua contraposição à rosa particular, individual no mundo.
Por trás do enredo gênero “quem matou quem?” estão disputas como a do racionalismo, personificado por Baskerville, contra o misticismo, além de querelas econômicas, políticas e filosóficas relacionadas ao poder na Igreja Católica. Além disso, O nome da rosa é uma viagem imaginária à Idade Média europeia; uma oportunidade de reflexão aberta das questões filosóficas — dos conceitos de certo e errado, de bem e mal, da moral cristã, do que está por trás dos conceitos e crenças atuais —, mesmo que por contraste com o conjunto de questionamentos que ecoam de séculos passados.
Ainda é importante mencionar que a biblioteca que serve como plano de fundo é inspirada no conto “A Biblioteca de Babel”, do argentino Jorge Luis Borges — uma biblioteca universal e infinita que abrange todos os livros do mundo. Para homenagear o escritor, Eco criou o personagem Jorge de Burgos, que além da semelhança no nome é cego, como Borges foi ficando ao longo da vida.
Em meio a uma busca frenética por um misterioso segundo volume da Poética de Aristóteles, supostamente sobre o riso, Adso comenta: “Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir de verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade.” Usando a fórmula para captar o leitor, Umberto Eco acaba levando multidões de todo o mundo em uma longa turnê pela “inverdade” dos labirintos da ficção.
Em 1986, o livro foi adaptado para o cinema pelo francês Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery no papel principal. Desde então, foram muitos os autores que lançaram mão da fórmula policial para escrever livros que exploram questões políticas e filosóficas.
Até a próxima!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O destino bate à sua porta

O destino bate à sua porta

Na semana passada, quando falei sobre o enredo do livro Acima de Qualquer Suspeita, revelei que ele possuía o mesmo enredo de Édipo Rei, ou seja, o personagem principal, o investigador, acaba chegando a si próprio: apenas uma pista de como ele realiza a investigação. Assim, para os leitores que não leram o livro, converti um efeito de suspense (quem é o assassino?) em um enigma de mistério (como foi que ele fez?).
Um mistério que se resolve é, em última análise, um acontecimento que conforta o leitor, que assegura o triunfo da razão sobre o instinto, da ordem sobre o caos, seja nas histórias de Holmes ou nos casos relatados por Freud.
Esta semana vou falar de um autor que inverteu a fórmula: ao invés de crime, investigação e solução, ele optou por contar como o personagem chegava ao crime, ou seja, usou a questão “como foi que ele fez”.
Voltando um pouquinho às origens do hard boiled, falei bastante sobre Chandler e Hammett. Vou falar um pouco sobre James M. Cain — um autor importante no estilo hard boiled americano. Houve inclusive um biógrafo que o chamou de “o ovo de vinte minutos da ficção supercozida”, o super Hard Boiled!
Cain custou a ser reconhecido como um escritor noir porque escreveu muitas outras coisas, de diferentes estilos. E quando escreveu romances noir, Edmund Wilson, o terror em crítica literária da época, o pichou e detonou sua reputação.
Enquanto Hammett e Chandler escreviam sobre detetives delicados/durões, que tentavam desenredar a confusão causada por outra pessoa com um ato violento ou ganancioso, Cain criava personagens bidimensionais, interessados apenas em si mesmos e motivados pelo desejo de dinheiro e sexo. São personagens falhos, por serem demasiado e inteiramente maus, e o autor não demonstra piedade por eles.

Diante da pergunta “como foi que ele fez?”, Cain desenvolveu o conceito de contar a história do ponto de vista do criminoso. O material de que foram feitos seus livros é o da grande literatura: dinheiro, sexo e morte. Com estes três elementos em jogo, os escrúpulos não contam muito.
Através das emoções do criminoso, o autor aos poucos cria a tensão psicológica capaz de levar ao assassinato.

Suas obras são muitas, entre elas A mulher do Mágico e A história de Mildred Pierce. Mas seu grande sucesso foi O destino bate à sua porta. Em 1934, quando foi publicado, este livro chocou tanto o público americano que foi condenado por imoralidade e proibido de circular em Boston.
Na verdade, neste romance, a violência e o erotismo estão organizados de tal maneira que dificilmente perderão força. A história é simples: o vagabundo de beira de estrada conhece a mocinha ordinária, que infelizmente é casada. Como o marido é um estorvo, que não os deixa muito à vontade para viver sua tórrida paixão, por que não acabar com ele de uma vez? São personagens secas e más. Movimentam-se em função da própria paixão e vão até o assassinato.
Também o texto é seco. A trama cerrada e a caracterização impecável dos personagens são outras virtudes deste clássico de James Cain.  Considerado na época rudimentar e grosseiro pela crítica, Cain hoje é visto como um clássico, e reconhecida a influência de O destino bate à sua porta sobre o aplaudido romance existencialista de Camus, O Estrangeiro (L’Étranger, 1941).
Em 1946, “O destino bate à sua porta” ganhou sua primeira versão cinematográfica, com Lana Turner no principal papel feminino; em 1981, refilmado com Jack Nicholson e Jessica Lange, teve sua contundência confirmada por duas interpretações magistrais.

Se eu tivesse que recomendar uma das duas, seria difícil. Minha recomendação é: assista ambas!
Até a próxima!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Advogados acima de qualquer suspeita

Advogados acima de qualquer suspeita

Logo que comecei a escrever sobre o gênero policial, mencionei que o primeiro detetive surgiu quando as grandes cidades começavam a se formar. O mundo, que passava por uma grande mudança, a revolução industrial, de lá para cá se tornou muito mais complexo. Não vou enumerar estas complexidades, pois uma crônica não seria suficiente.
No mundo moderno interagimos mais. No entanto, a natureza humana, sendo o que é, faz com que a interação gere disputas. Em gerações passadas, nossas diferenças eram geralmente dirimidas por instituições como igrejas, famílias, grupos comunitários. A maior parte da roupa suja era lavada em casa. Passado o sufoco após a Segunda Guerra, as pessoas passaram a apelar para os advogados. A resposta universal, aparentemente automática para qualquer erro ou prejuízo, é: “Vamos processar!”
As salas dos tribunais, nos últimos cinquenta anos, também se tornaram um caldeirão onde os valores nacionais são moldados. As cortes de justiça passaram a ser mobilizadas para arbitrar contendas de significação moral e até mesmo religiosa – direito de aborto, assédio sexual, discriminação baseada em preferência de raça, gênero sexual etc. As gerações que nos antecederam teriam certamente ponderado que estas questões eram inadequadas para o procedimento judicial; hoje, os tribunais têm a última palavra, e a roupa suja é lavada em público.
Na medida em que a influência de outras instituições sociais definhou, os tribunais preencheram a lacuna. Não é de admirar que as pessoas se mostrem curiosas sobre os mecanismos internos do judiciário. A partir desta modificação no sistema e na vida cotidiana das pessoas, nos Estados Unidos surgiram diversos livros em que o detetive é o advogado.
A fórmula “crime, investigação e solução” continua exatamente como nas histórias anteriores. A diferença é que a investigação em geral acontece nos tribunais. Quando o detetive aponta o criminoso, há uma sensação de que o mundo foi resgatado do caos, que a ordem foi restabelecida. Esta ordem estabelecida acontece no sentido legal, na medida em que os personagens se esforçam para compreender não apenas o que é certo e o que é errado, mas o sentido da justiça (um conceito mais difícil e ilusório) num mundo aparentemente mais injusto.
Foi neste mundo que surgiu Rusty Sabich, personagem de Scott Turow, no livro Acima de Qualquer Suspeita. Sabich, um promotor, descobre que sua colega Carolyn Polhemus foi assassinada de maneira brutal, e é obrigado por seu chefe Raymond a lidar com as investigações. Raymond quer se reeleger para o cargo que ocupa e concorre com Tommy Molto, que está de olho em Rusty e suas atividades.
É Tommy quem garante que Rusty estava no apartamento da morta no dia de seu assassinato e que deixou suas impressões digitais num copo. Rusty é preso e desprezado pelo chefe, que lhe nega apoio. Entra em cena um advogado que vai provar sua inocência com a ajuda do detetive Lipranzer, colega de trabalho de Rusty, e de Barbara, sua esposa.
Não posso afirmar que este tenha sido o primeiro detetive advogado. Mas foi o primeiro que eu li, e amei. E pasmem, a trama é a de Édipo! O personagem principal vai em busca de si mesmo… (Putz! contei o final da história!)
Édipo ouviu de Creonte que o antigo rei estava num comboio e tinha sido morto por salteadores; e anuncia que fará o possível e o impossível para capturar o assassino. Para ajudar na investigação, chama Tirésias, um velho cego que fica sabendo das coisas através do canto e do voo dos pássaros.
Este, porém, não quer falar sobre o acontecido, já que tal revelação poderia trazer mais infelicidade, principalmente para o rei. Após muitas ameaças deste, Tirésias diz que o assassino é o próprio rei. Édipo continua a investigação e acontece toda a tragédia para ninguém botar defeito!
“Acima de Qualquer Suspeita”, tornou-se filme em 1990, com direção de Alan J. Pakula, com ninguém menos que Harrison Ford no papel principal.
Além de Turow, John Grisham tem vários títulos nas nossas listas de mais vendidos, e teve todos os seus livros filmados. Seu primeiro livro foi Tempo de Matar, passado em um tribunal. O filme conta a história de Carl Lee, um pai que teve sua filha estuprada aos dez anos de idade por dois homens brancos, bêbados e racistas na cidade de Canton, no Mississippi.
Lee dispara tiros com uma metralhadora na entrada do julgamento (ainda não existiam detectores de metal), matando dessa forma os dois agressores. De quebra, deixa deficiente um policial que os acompanhava e se pusera na linha de tiro. Não vou contar o final!!
William Bernhardt criou o detetive Ben Kincaid. Seu primeiro livro, Justiça Cega, teve a mesma trajetória de sucesso.
Como vemos, a fórmula vai mudando, vai sendo adaptada ao momento histórico do planeta e consegue assim pegar o leitor. Até a próxima!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Meu nome é Bond, James Bond!

Meu nome é Bond, James Bond!

Na semana passada falei sobre Nero Wolfe, um dos detetives mais cerebrais da literatura mundial. Nele, além de ótimas refeições e criação de orquídeas, tudo era raciocínio.
No entanto, o que acabou por caracterizar o noir americano foi a ação, o detetive durão, as mulheres sensuais e perigosas, o automóvel, enfim, a fórmula absorvendo as modernidades de cada época.
O detetive durão é hoje tão parte do folclore americano quanto o pioneiro da fronteira ou o caubói, e como a maioria dos heróis muitas vezes tem seus feitos exagerados. Na verdade, a aparente ilimitada capacidade de beber dessas personagens e a maneira espantosa como se recuperam de surras, cacetadas e ferimentos sangrentos são quase sobre-humanas. Não há dúvida de que nenhum mortal comum poderia igualar-se.
Sempre me perguntei o que tornou tão populares essas figuras caricatas. Houve o período de depressão americana após a Primeira Guerra Mundial, em que muita gente se sentia frustrada diante dos chefões do crime organizado e políticos não muito sérios. O detetive que surgiu na ficção da época (especialmente Chandler, Hammett e M. Cain) estava empenhado numa cruzada contra os males da sociedade, se dedicando à manutenção da justiça. Como escrevi logo nas primeiras crônicas, é sempre uma luta do bem contra o mal, e o leitor precisa de um final feliz; sentir que o bem vence o mal, mesmo que seja somente na ficção, é o que faz do leitor um viciado.

Bem, na vida real aconteceu a Segunda Guerra Mundial e a figura do detetive continuou lá. Imbatível!
Nesse clima de pós-guerra, exatamente em 1953, surgiu James Bond no livro Cassino Royale, outra fórmula repetida várias vezes que deu certíssimo! Como o mundo inteiro sabe, James Bond é um agente secreto do serviço de espionagem britânico criado pelo escritor Ian Fleming.

Sei que é um desafio falar sobre personagens tão famosos, com muita literatura sobre o assunto. No caso, estou relembrando o personagem e mais uma das fórmulas que deu certo.
Antes de virar filme, Bond era literatura. Foi descrito como um homem alto, moreno, de olhar penetrante, viril, porte atlético e sedutor, com idade estimada entre 33 e 40 anos, apreciador de martini seco (batido, não mexido) exímio atirador com licença 00 para matar — sétimo agente desta categoria especial, daí seu código 007 — e perito em artes marciais, que combatia o mal pelo mundo a serviço do governo de Sua Majestade, com charme, elegância e cercado de belas mulheres, sempre se apresentando com a famosa frase “Meu nome é Bond, James Bond”.
O personagem, apresentado ao público em livros de bolso na década de 1950, tornou-se um sucesso de vendas e popularidade entre os britânicos e, logo a seguir, entre os países de língua inglesa. Na década seguinte, os livros viraram uma grande franquia no cinema, a mais duradora e bem-sucedida financeiramente, com um total de vinte dois filmes oficiais, começando com O Satânico Dr. No, em 1962.
Ian Fleming escreveu doze livros e dois contos protagonizados por James Bond, antes de morrer, em 1964. Após sua morte, outros livros foram escritos por Kingsley Amis e Raymond Benson, entre outros. Foi uma fórmula de tanto sucesso que outros autores conseguiram dar continuidade.
Às vezes me pergunto o porquê de tanto sucesso para uns e nenhum para outros. No caso de James Bond, além da fórmula que se adaptava ao pós-guerra e à Guerra Fria, o detetive ainda usava e abusava das engenhocas (gadgets) criadas pela tecnologia, que havia avançado muito durante a guerra. Outro fator foi que quando lançaram o primeiro filme James Bond foi interpretado pelo então semidesconhecido ator escocês Sean Connery. Feito com orçamento pequeno, o filme estourou nas bilheteiras de todo o mundo, transformando Connery num ícone dos anos 1960.
Além do carisma e do charme do personagem principal, havia os mirabolantes vilões, as engenhocas mortais de alta tecnologia, suas canções-tema e as maravilhosas Bond-girls! Tinha que dar certo!
Para quem é escritor, sempre é bom saber um pouco sobre o autor de personagens tão famosos. Ian Fleming era filho da nobreza britânica; estudou no famoso Eton College, cursou a Academia Militar Real de Sandhurst e deixou sua mãe furiosa ao trocá-la por um curso de idiomas nos Alpes sem sequer ter conseguido um mínimo posto de oficial. Não conseguiu ingressar no serviço de estrangeiros e, com 23 anos, não tinha carreira nem perspectivas. Trabalhou como jornalista em Moscou durante quatro anos, e posteriormente como corretor na bolsa de valores de Londres até o ano de 1939.
Durante a segunda guerra mundial, Fleming foi designado ao serviço de inteligência na Marinha britânica e, devido aos seus conhecimentos e facilidade com idiomas, serviu como assistente pessoal do Almirante John H. Godfrey, cujo perfil serviu parcialmente como modelo para o desenvolvimento da personagem “M”, o superior hierárquico de James Bond.
Durante a guerra, Fleming esteve envolvido com magos e astrólogos de peso, como Aleister Crowley, que se infiltravam entre os nazistas, pasmem, implantando informações em documentos secretos, como a falsificação de horóscopos. Fez tudo isso e mais um pouco até que, aos 45 anos de idade, acertou retomando a fórmula policial, agregando as novidades da época e criando James Bond na região do Caribe, mais precisamente na Jamaica, onde Fleming escreveu a maioria dos livros e onde se casou com Lady Ann Rothermere em 1952, filha de Lord Rothermere, proprietário do Daily Mail.
Ian Fleming morreu aos 56 anos, vítima de um ataque cardíaco na manhã de 12 de agosto de 1964, num campo de golfe, no condado de Kent. Seus livros foram traduzidos para muitos idiomas e são vendidos em edições sucessivas em todo o mundo. Os filmes vêm sendo filmados e refilmados! Vários atores já fizeram James Bond no cinema, todos eles com estrondoso sucesso!
Sorte e talento! Até a próxima.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Seguidores famosos

Seguidores famosos

Ao observar o gênero policial, podemos ver que os autores bem-sucedidos foram usando a fórmula com sabedoria e agregando detalhes da época. Os seguidores da fórmula criada por Poe foram muitos. Pretendo falar de alguns deles, hoje Rex Stout (1886-1975). Ele criou uma fórmula que repetiu 46 vezes, sem escrúpulos, e vendeu muitos milhares de livros, que se desdobraram em filmes e séries de TV, 46 histórias com o famoso detetive Nero Wolfe, considerado o mais cerebral de todos os detetives americanos: gordo, gastrônomo, leitor de poesias e criador de orquídeas.
Nero Wolf jamais deu um passo fora de casa para resolver as equações de sangue e mistério que lhe eram apresentadas. Isso ficava por conta do narrador das histórias, a exemplo de Dr. Watson, seu assistente Archer Goodwin. Ele era jovem e esbelto como manda o figurino, encarregado de arrebanhar para a casa (com orquidário e um cozinheiro invejável), no coração de Manhattan, todos os protagonistas e antagonistas da encrenca em pauta. Ali, reunidos diante da escrivaninha de Wolfe, eram submetidos à astúcia dedutiva do nosso detetive até que, do entrechoque das versões e contraversões, de confissões e atos falhos, desabrochava, como uma flor do seu orquidário, o irrefutável culpado.
Você que está lendo esta crônica, com certeza já leu uma dessas histórias! Muitas delas foram publicadas no Brasil! Eu li e reli nem sei quantas! Além de gostar demais de Nero Wolfe como detetive, gosto do seu charme nas refeições; quando nem se falava em harmonizar vinhos, cervejas e comidas, ele o fazia com maestria.
Mas vamos começar do começo. Rex Stout nasceu no estado de Indiana, de uma antiga e tradicional linhagem de quakers. Pouco depois do seu nascimento,  seus pais, John Wallace Stout e Lucetta Elizabeth Todhunter Stout, mudaram-se junto com os seus nove filhos para o estado do Kansas. Seu pai era professor e encorajou-o a ler. Diz a lenda que ainda na infância Rex leu a Bíblia inteira por duas vezes. Aos treze anos, foi campeão estadual do concurso de soletrar. Mas ele era bom mesmo em matemática.
Estudou na Universidade do Kansas. De 1906 a 1908 serviu na marinha dos Estados Unidos, e durante os quatro anos seguintes trabalhou em cerca de treze empregos diferentes em seis diferentes estados americanos. Esporadicamente, vendia poemas, histórias e artigos para diversas revistas, entre as quais a All-Story Magazine. Em 1916, devido à sua fluência em matemática e à invenção de um sistema bancário escolar, ganhou dinheiro suficiente para lhe permitir extensas viagens pela Europa. Tratava-se de um sistema de registro de poupanças efetuadas pelos alunos, pelo qual recebia royalties, e que foi adotado em cerca de 400 instituições de ensino dos Estados Unidos. Em 1929, em Paris, escreveu o seu primeiro livro, How Like a God. Regressou aos Estados Unidos e começou uma carreira literária que incluía romances policiais, contos e ficção científica.
Foi em 1934, com quase 50 anos e a publicação de Fer-de-lance (no Brasil, Serpente ou Picada Mortal), a primeira história protagonizada pelo detetive Nero Wolfe, que ele atingiu reconhecimento da crítica e do público. Esse livro foi adaptado dois anos depois para o cinema sob o título de “Meet Nero Wolfe”, dirigido por Herbert Biberman, com Edward Arnold no papel principal e Lionel Stander como Goodwin.
No ano seguinte, Stout publicou The League of Frightened Men (A Confraria do Medo), que foi adaptada para o cinema com Walter Connolly no papel principal e mantendo Stander como Archie Goodwin.
O escritor foi presidente do Author’s Guild e dos Mystery Writers of America. Em 1959 recebeu o Grand Master Award. Stout foi ativo em causas liberais e ignorou uma intimação da Comissão das Atividades Antiamericanas, no auge da era McCarthy. Anos mais tarde, perdeu muitos amigos liberais devido à sua posição em favor da intervenção dos Estados Unidos na guerra do Vietnam. No auge do sucesso, mudou-se para a França. Dizem que ele trabalhava em seus escritos três a quatro meses por ano; no resto do tempo cuidava da fantástica villa em que vivia.
Suas histórias foram publicadas e venderam muito. Também se transformaram em filmes e séries para TV. Nero Wolfe foi representado no cinema entre as décadas de 1930 e 1980. Em 1981, Nero Wolfe, representado por William Conrad, deu título a uma série de televisão de 14 episódios produzida pela Paramount Television e transmitida pela National Broadcasting Company (NBC). Em 2001 foi iniciada uma série televisiva com Maury Chaykin no papel de Nero Wolfe e Timothy Hutton representando Archie Goodwin. Esta série transmitiu 29 episódios em duas temporadas.
Nero Wolfe era tão bom que o escritor Robert Goldsborough tentou revivê-lo nos anos 1980, mas não obteve sucesso. Rex Stout morreu em 1975 na sua suntuosa villa no Mediterrâneo.
Como se vê, uma fórmula bem adaptada pode dar certo!

domingo, 28 de agosto de 2011

Noir

Noir

Na crônica da semana passada falamos do hard boiled, detetive durão insensível, e seus primeiros expoentes: Hammett e Chandler.
Ambientadas em meados do século passado, entre a grande depressão e os “anos dourados”, muitas histórias foram criadas. E tratam de uma América em crise, onde a construção da futura maior nação capitalista do mundo convivia com hordas de desempregados e aventureiros lutando pela vida.
Era uma América contaminada pelo desencanto, onde não havia ilusões entre os desvalidos nem complacência entre os vencedores: um mundo contraditório, cheio de reações ambíguas e homens violentos, os chamados “durões” — expressão imortalizada justamente por este gênero.
Nas histórias há sempre um detetive particular, maltratado pela vida e pelos tiras, que se envolve em casos geralmente estranhos, num mundo com sua lógica própria; são ricaços inescrupulosos, mulheres enigmáticas, prostitutas de luxo, escroques, assassinos de aluguel, tiras corruptos, enfim, gente da pior qualidade mesclada a perdedores de coração mole, tudo a 25 dólares por dia, mais despesas.
Foi a partir dessas histórias publicadas em livros, e também na revista Black Mask, que foi criada na França uma coleção para publicar estas mesmas histórias, todas com capa preta e impressas em papel vagabundo.
O termo pegou. Embora o gênero não tivesse sido inventado na França, a ideia de publicá-las em livros baratos com capas pretas — “noir” — nomeou o gênero. Apropriando-se dele, o cinema — utilizando a fórmula “crime, investigação e solução” e retratando personagens cínicos e durões insensíveis — fez um tremendo sucesso com seus filmes em branco e preto.
Como já disse anteriormente, não sou especialista em livros policiais, sou viciada na leitura deles! Penso o livro policial como o jazz da literatura: as músicas ou movimentos musicais estão sempre superando o que aconteceu antes, inventando e mesclando ritmos, mas o jazz é o Jazz.
Foram criados temas que vão evoluindo à medida que evoluem tecnicamente os instrumentos, mas a base, o tom do jazz, não muda. Enquanto outros movimentos se esgotam, ele continua: é uma grande arte.
O mesmo se diz do romance policial. Enquanto outras formas vão tendendo para o caótico, o romance policial se mantém com começo, meio e fim, e com a mesma fórmula: crime, investigação, solução… e sucesso absoluto de vendas.
O noir, com a evolução de colocar o detetive nas ruas, usar e abusar do automóvel, com seus detetives durões e mulheres fatais, começando pelo Falcão Maltês, teve seguidores fantásticos.
James Cain (anos 1930/40), de O Destino Bate à Porta e A Mulher do Mágico, também foi dos inovadores. A maioria das suas tramas segue o mesmo esquema: um homem se apaixona por uma mulher, se envolve em uma atividade criminal com essa mulher e é traído por ela.
Ele desenvolveu o conceito de contar a história do ponto de vista do criminoso. Em o Destino Bate à Porta, um jovem errante deseja a esposa do velho dono de um boteco e, em consequência, os dois planejam o assassinato do marido. Foi um best-seller instantâneo, filmado logo depois. Cain diferia de seus antecessores por fazer de quase todos os seus personagens, senão todos, pessoas genuinamente desagradáveis e más, e revelar através das emoções delas como acabavam chegando ao assassinato.
Enquanto Hammett e Chandler escreviam sobre detetives bons/maus, delicados/durões, que tentavam desenredar a confusão causada por outra pessoa com um ato violento ou ganancioso, Cain criava personagens bidimensionais, interessados apenas em si mesmos, e motivados pelo desejo de dinheiro ou sexo. São personagens falhos, por serem demasiado e inteiramente maus, e o autor não demonstra piedade por eles.
Cain teve um biógrafo que o chamou de “o ovo de vinte minutos da ficção supercozida”, o Super Hard Boiled!
Ross Macdonald (anos 1960/70) criou o detetive Lew Archer, ex-policial de Long Beach, Califórnia, que foi demitido porque não tinha estômago para a administração corrupta da polícia à qual era forçado a servir, e por isso se tornou detetive particular (o mais famoso daquela época). Descrito como um homem solitário, que age com mais eficácia nas sombras, ele é também um “catalisador involuntário de problemas”. Trabalha num escritório pequeno e frio, mas surpreendentemente cheio de livros (que ele avidamente lê quando não está ocupado com um caso). As paredes têm pinturas modernas de boa qualidade.
Archer é diferente de muitos outros detetives durões, no sentido de que não se compraz com sexo promíscuo e tem uma verdadeira afinidade com pessoas jovens. Paul Newman o imortalizou.
Na próxima conto mais!